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domingo, 5 de outubro de 2014

Não vote, lute

BRASIL   
o Brasil é um país novo que se imagina velho, e um país velho que se supõe novo. 

No livro O Avesso das Coisas, conjunto de máximas com aparência de mínimas, o poeta Carlos Drummond de Andrade tira do cotidiano não apenas o lírico mas também o curioso, o imprevisível, o insólito. O livro reúne aforismos engenhosos que revelam seu modo pessoal de ver as coisas. 

Já o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, comentando as eleições de hoje, apelou num post na internet "Não seja mais um votário. Só conta o que nós mesmos fazemos", acrescentando que "O voto nulo é agora um dever cívico incontornável. Declaro de antemão meu voto neste segundo turno: não vote, lute."

Hoje foi dia de eleições no Brasil.

Dilma venceu em 15 estados, Aécio em 9, Marina em 2.

Eleito governador em Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel destronou o PSDB há 12 anos no poder, o ex-jogador de futebol Romário foi eleito Senador pelo Rio de Janeiro, com uma votação surpreendente, e no Estado de São Paulo, Celso Russomanno foi o deputado mais votado do País, seguido do famoso humorista Tiririca, que prioriza projetos para palhaços, e do pastor Marcos Feliciano, conhecido pelas suas polêmicas frente à Comissão de Direitos Humanos e Minorias, que presidiu no ano passado.

No Fórum Social Mundial, que aconteceu no Brasil em Porto Alegre, em 2005, numa palestra a propósito de Dom Quixote, utopia e política, José Saramago dizia: 
"...a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada. O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? "



DEMOCRACIA 
é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder.


Embora muitos apontem o projeto desenvolvimentista do PT como um entrave a uma mudança real de paradigma social, que possa desafiar o liberalismo econômico internacional, e resgatar uma nova relação com o território, integrando as comunidades indígenas, promovendo a inclusão das minorias, para uma maior igualdade, eu ouvi a Dilma dizer hoje duas coisas em seu discurso de agradecimento:

que a política do FMI deve ser combatida
que a prioridade do seu segundo governo será a reforma política

e li também a ativista e pesquisadora em comunicação Ivana Bentes:

"Eu voto porque somos ingovernáveis! Na coluna deste sábado, Zé Miguel Wisnik sempre elegante, faz no Globo um balanço, de várias posições pro e contra Dilma e Marina. Me cita no debate como tendo optado por Dilma por "pragmatismo ativista". Bem, não voto em Dilma por "pragmatismo" ao contrário, o delírio (no sentido de aposta, risco, fabulação) é bem mais estruturado: Dilma é só uma parte de um processo muito mais potente que está em curso. As experiências autônomas e horizontais são em parte efeito desse processo político de 12 anos, um processo de auto-organização e governança em curso. São essas forças que farão e forçam hoje a uma "virada de imaginário" em tantos campos. Dilma será atropelada por essas mudanças se ficar refém do governismo e apartada dos movimentos sociais."

Então, eu não sei o que se vai passar com este país nos próximos tempos, e eu não posso sequer votar aqui. Estava hoje falando com minha amiga Ana, que fui levar ao aeroporto, que a última vez que votei foi nas eleições legislativas portuguesas de 2011. Também quero ver um sistema diferente, maior participação popular, mais crítica e autonomia de pensamento.

Mas o que eu acho é que apesar de tudo (e desse tudo faz parte o conservadorismo ter saído do armário e a gente se perguntar afinal de contas o que queria essa gente que foi para a rua em junho de 2013) as forças que animam a vida social brasileira estão vivas, e recomendam-se. 

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