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terça-feira, 7 de outubro de 2014

A Invenção da Cultura

Em Teorias Antropológicas Contemporâneas, andamos a debater o livro de Roy Wagner, A Invenção da Cultura, escrito em 1975, mas só publicado em português 35 anos depois, numa bela edição da Cosac Naify. 

O livro radicaliza uma reflexão sobre o polêmico conceito de cultura em Antropologia – a partir da consideração dos modos de conceitualização nativos, ela reformula a própria disciplina antropológica, fazendo-a pensar sobre si mesma.  Para Wagner, não se trata de entender o que outros povos produzem como “cultura” a partir de um dado universal (a “natureza”), mas antes, o que é concebido como dado, e portanto como cultura, por outras populações. 

Sua primeira edição é quase simultânea de dois outros livros de antropólogos norte-americanos que marcaram a antropologia contemporânea: A Interpretação das Culturas, de Clifford Geertz, e Cultura e Razão Prática, de Marshall Sahlins - publicados, respectivamente, em 1973 e 1976. O destino desses três livros, contudo, continua sendo muito diferente. Afinal, os dois últimos conheceram uma difusão e um sucesso que o primeiro mal começa a experimentar e que dificilmente terá em grau comparável.








Na crítica que Márcio Goldman (UFRJ-Museu Nacional) escreveu ao livro, em 2011, O Fim da Antropologia, ele compara as três abordagens da cultura e enfatiza a originalidade de Wagner: 

" A "mensagem" desses livros parece tão adaptada ao momento em que foram escritos que é difícil concebê-los em outro contexto qualquer. Afinal, nos dois casos se tratava, em breves palavras, de salvar o culturalismo daquilo que sempre foi o que poderíamos chamar seu melhor inimigo, a saber, o reducionismo naturalista. Ou seja, aquilo sem o que a antropologia cultural simplesmente não pode funcionar, na medida em que lhe faltaria esse seu "outro", aquele que define, equivocadamente sem dúvida, o que a cultura elabora, interpreta, simboliza ou transcende - a natureza.

Observemos também, ainda que de passagem, que esse naturalismo se apresentava, tanto a Geertz como a Sahlins, sob uma dupla forma. De um lado, as antropologias ditas ecológicas ou materialistas, que ambos simplesmente recusam; de outro, uma versão muito mais complicada, sofisticada e, talvez, inesperada, o estruturalismo levistraussiano. Afinal, apenas dois anos antes da publicação do livro de Geertz, Lévi-Strauss havia concluído sua mitológica tetralogia - em que a demonstração da incrível sofisticação de que era capaz o pensamento indígena parecia anular qualquer possibilidade de redução - com um livro significativamente intitulado O Homem Nu, que conclui com a peremptória afirmativa de que, no final das contas, tudo não passa do produto da atividade do cérebro humano, ele mesmo produto de um complexo processo de evolução natural: higher naturalism, como definiu Sahlins; hypermodern intellectualism, nas palavras de Geertz. Mas, se Geertz parece simplesmente recusar a alternativa levistraussiana buscando refúgio numa hermenêutica que invariavelmente funciona como saída sofisticada para os que não gostam da noção de estrutura, a reação de Sahlins é diferente. Oriundo, ele próprio, de uma tradição antropológica materialista e neoevolucionista, um estágio em Paris o fez imaginar a possibilidade de, por assim dizer, embutir o estruturalismo no culturalismo, fazendo das "estruturas da mente" os "instrumentos da cultura", não sua "condição", e da própria estrutura apenas uma parte da cultura e da história.

O livro de Wagner segue um caminho bem diferente, seja em relação ao interpretativismo geertziano, seja em face do culturalismo estruturalizado de Sahlins. Tão diferente que podemos ter hoje a sensação de que não são apenas um ou dois anos para mais ou para menos que separam A Invenção da Cultura desses dois outros livros, mas algo como meio século! De fato, se A Interpretação das Culturas e Cultura e Razão Prática soam hoje como anúncio do fim (no duplo sentido de acabamento e de término) de uma Antropologia fin de siècle (século XX), A Invenção da Cultura parece anunciar o início de outra coisa, que poderíamos imaginar como uma das possibilidades abertas para a Antropologia do século XXI. "
 
Apesar de só agora me adentrar mais na realidade deste debate, sigo entusiasmada pela ideia de Wagner, de que "é preciso ultrapassar as fronteiras das próprias convenções e investir a imaginação no mundo da experiência", e pela ideia de que esse investimento ocorre sobretudo no trabalho de campo, uma vez que a experiência etnográfica impõe resistência às categorias analíticas do antropólogo. 

Ele vai se tornando o ponto articular entre duas culturas e, à medida que ambas vão sendo objetificadas (ganhando contornos), a invenção de uma é concomitante à reinvenção de outra.

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