Língua

quinta-feira, 30 de julho de 2015

perder os sapatos

Quando vinha para Lisboa no avião, veio-me à ideia as vezes em que perdi os sapatos no Brasil. Contei três vezes já, as vezes em que cheguei descalça a casa, ou atravessei descalça a cidade para parar numa drogaria ou num quiosque a fim de comprar umas havaianas que remediassem a situação. A primeira foi no Reveillon, quando depois de uma noite em que saí do mar já de manhã, não sabia onde estavam minhas roupas, meus amigos, nem tão pouco minhas sandálias, no meio da multidão dispersa da praia de Copacabana. Os amigos e o vestido eu encontrei, mas as sandálias não, e acabei trazendo umas havaianas perdidas também da areia. A segunda vez foi no Carnaval em Belo Horizonte, no bloco Filhos de Tcha-Tcha, que aconteceu numa ocupação a uma hora e tal da cidade, depois de chover muito e tudo se transformar num lamaçal gostoso em que os corpos e a música se fundiram noite dentro. A terceira foi na prainha em Piratininga, na costa de Niterói, há umas semanas atrás, com minha amiga Daniela. Ela falou que eu era a segunda pessoa que perdia sapatos com ela na praia. 

Quando estava no ar, imaginava como seria atravessar descalça as ruas de Lisboa, se de repente por qualquer motivo eu perdesse os meus sapatos.

No Rio de Janeiro isso me parece a coisa mais normal do mundo, como tantas coisas que combinam com a naturalidade desse improviso que tento explicar aqui, em mesas de bar. Umbanda, antropofagia, frituras, greves, meninos do surf, havaianas.

Minha amiga Daniela, antropóloga a fazer pesquisa na cidade, analisa e documenta os objetos que os portugueses levam na mala entre os dois países, e faz isso através do desenho, com seu olhar atento, cuidadoso. Enquanto eu estou de férias em Lisboa, ela está a desenhar o meu apartamento na Lapa, e acaba de me enviar alguns esboços.


 



sábado, 18 de julho de 2015

à beira do milagre

Outro dia fui no lançamento do livro Vai Brasil da Alexandra Lucas Coelho, e pude finalmente conhecê-la!... Achei-a talvez mais magra do que imaginei. Gostei da sua atenção cuidadosa, que se desdobrou em muitas caras e vozes ao longo da noite sem nunca perder a curiosidade, e gostei da dedicatória que me fez no romance que acabei por comprar, "A noite roda." Acabámos a noite falando de ayuaska, porque a minha amiga Daniela tinha feito o ritual com o mesmo "guia" que ela, e dos árabes no Brasil, que parece que são menos em número afinal do que se diz. Gostei de saber que ela esteve em São Gonçalo do Rio das Pedras, lugarejo no interior de Minas onde estive hospedada em 2008, e do qual guardo uma memória muito especial. Além do frango caipira da senhora da casa onde fiquei, da estrada de terra, foi lá que eu achei a cachaça Chora Rita, que deixou de ser fabricada nesse mesmo ano, e que inspirou meu website.

nessa entrevista recente de Alexandra, gostei da forma como ela fala do Rio de Janeiro:
Sobre essa alegria que virou clichê, quem mora no Rio sabe que ela vem do fundo da tristeza. Da opressão da violência. Sendo uma alegria que vem tão de baixo, é quase como se o Rio fosse uma cidade extra-humana. Eu vejo o Rio como um milagre humano. A cidade é uma prova de como continuar a ser humano.