Língua

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sean

Continuo me deleitando com o livro autobiográfico de Liv Ullmann, "Mutações", escrito por ela em 1976, quando tinha apenas 38 anos. Hoje pesquisando, soube que ela escreveu outro em 1984, que se chama "Opções". Com uma prosa lúcida e ao mesmo tempo detalhista, como nos filmes de Bergman ou os próprios filmes que dirigiu, o livro é límpido e terno como a paisagem nórdica que descreve, a força do mar profundo e dos bosques com caminhos estreitos, a alegria primaveril quando o sol desponta e ela e a filha colhem morangos silvestres na ilha.

Depois do capítulo em que descreve os cinco anos da sua relação com Bergman, que termina com a visita a Roma para conhecer Fellini, Liv conta como foi o regresso à sua terra natal na Noruega para fazer teatro, antes de viajar pelo mundo e tornar-se uma estrela internacional. 

Em noite de óscares na televisão, deixo aqui este trecho curioso, entre tantas histórias simples e reveladoras de uma vida iluminada.

"Um dia, recebi um belo poema sobre a saudade de casa. Sean Connery, que o escreveu, também vivia viajando de um lado para o outro, como eu, passando a noite em camas estranhas. Em sua bagagem, tinha um grande maço de escritos. Leu muitos deles para mim. Sua mala era cheia de laudas amassadas, e algumas muito encardidas. Papéis de hotéis do mundo inteiro. Uma vida secreta que ele carregava consigo,  para não ser tão estrangeiro nesta terra. Ele me contou seu desejo: de que a vida fluísse livremente sobre ele, de modo que a felicidade, se viesse, pudesse encontrá-lo aberto para recebê-la. Muitas vezes vejo fotos suas nos jornais. Sempre no centro, sempre sorrindo. E espero que tenha conseguido. Que tenha obtido momentos de felicidade, enquanto o sucesso e o dinheiro fluíam sobre ele."


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Mutações

O círculo se fechou. Nada termina jamais. Onde quer que alguém plante raízes brotadas do seu eu mais puro ou verdadeiro, ali encontrará um lar.
Voltar não é revisitar algo que falhou. Posso percorrer as antigas trilhas sem amargura, porque outros pés agora têm prazer com elas.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

História das Lágrimas

Estou lendo este livro que descobri no último semestre em Antropologia das Emoções. Nele Anne Vincent-Buffault desenha uma categoria emocional dos séculos XVIII e XIX para responder à questão "Em sociedade, em que tempos chorou-se? Desde quando os homens não choram mais?" 

Como ela explica na introdução, "foi lendo romances do século XVIII, onde os personagens masculinos choram com uma volúpia inequívoca, que, de meu lado, encontrei essa surpreendente questão das lágrimas. As cenas de efusão desdobram-se em sutis alternâncias, onde a agitação das paixões concorre com êxtases deliciosos. Essas atitudes não pertencem somente à ficção: essas hipérboles, essas poses à Greuse tomam corpo nas correspondências, nas resenhas de espetáculos. A ficção une-se à vida. Os amantes banham suas cartas de lágrimas, os amigos abraçam-se chorando, e os espectadores desmancham-se em prantos com deleite. Aparentemente as coisas não se passam mais da mesma maneira no século XIX: uma nova economia dos signos corporais estabelece-se progressivamente, modificando os gestos da emoção. Seguir a pista das lágrimas permite captar as modalidades desta transformação. (...) Desde 1922 que Marcel Mauss colocou de maneira clarividente esta questão das lágrimas. Interrogando-se sobre "os ritos funerários orais das populações australianas", ela mostra que o uso obrigatório mas ao mesmo tempo espontâneo, das lágrimas confere-lhes um estatuto de signo*. Alguns meses mais tarde na mesma revista, Marcel Granet desenvolve essa análise, ao observar a linguagem da dor na civilização chinesa. Esses trabalhos estimularam-me a deslocar as noções de sinceridade e de espontaneidade face ao uso demonstrativo das lágrimas  - visão contemporânea que vem sem dúvida do século XIX, mas que não é central para todas as sociedades - em direção àquelas das redes de comunicação que elas revelam." 


* Me lembrei também do ritual funerário canibal dos Wari, em Comendo Como Gente de Aparecida Vilaça, que implica esse chorar por compaixão na hora da ingestão do morto