Língua

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

2015

para este próximo ano, que espero seja de afirmação e mais sossego no Rio, fiz uma lista das minhas metas:


ir filmar na gráfica, apresentação do livro, procurar apoios para o filme, produtoras, concorrer ao ICA

continuar a filmar o Diego, ir ao arquivo nacional, voltar na favela, desenvolver o curta que estou a fazer com ele

pesquisa com a Guarassuy: entrevistar o filho, ir falar com o cara do museu do índio sobre o filme do alemão, guardas rurais, marinha mercante, polícia civil, ler o marco antonio e o pierre clastres sobre o ritual

fazer a aula sobre os Guarani da Ana e Joana e as opcionais que me faltam (ética com o Cláudio? Behaviorismo com o Valmir?)

aulas livres no Museu Nacional

 
voltar no boxe tailandês, inscrever-me no pilates, massagem com o miguel

usar mais a academia e a sauna do prédio!

ir ao santo daime, e aos terreiros de umbanda e camdomblé

ir dois meses inteirinhos no verão a portugal para matar as saudades

comer melhor cozinhando!

ver mais cinema brasileiro

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Grateful

Assisti recentemente a uma conversa entre a Patti Smith e o cineasta David Lynch, em que eles trocam impressões sobre suas vidas e trabalho, e achei curiosa a história que Patti conta sobre a origem da canção "Grateful", que é uma homenagem ao cantor e guitarrista dos Grateful Dead, Jerry Garcia. Ela conta que num dia em que estava muito triste e deprimida, sozinha na sua sala e a pensar no aparecimento dos seus cabelos grisalhos, visualizou Jerry sorrindo para ela, e a canção apareceu já pronta na sua cabeça.

Aqui fica esta interpretação ao vivo na Biblioteca de Nova Iorque, em 2010. 

Patti Smith Performs Grateful
  

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Buika

eu não acredito na liberdade. creio que a liberdade é um mau sonho, é um pesadelo. creio que dependemos do ar para respirar, de que animais morram para podermos comer, de que alguém nos queira para nos sentirmos seguros. de que tudo esteja bem para sentirmos paz. creio que somos dependentes, creio que somos escravos! não creio que tenhamos capacidade para a liberdade. o que acredito é que temos a possibilidade de ter a chave da nossa cela, da prisão. eu quero ser a dona, a proprietária da chave da minha prisão. 
Ontem vi no Canal Brasil esta maravilhosa entrevista com a cantora Concha Buika realizada aqui na cidade num dia de chuva. Que seu sorriso e sua música nos acompanhem sempre!




domingo, 14 de dezembro de 2014

Relação Airbnb

Há duas semanas atrás me ligaram da Airbnb, conhecido site de busca de acomodação temporária, dizendo que meu apartamento tinha sido selecionado para receber a visita de um fotógrafo profissional. Achei curioso, pois não sabia que essa prática existia. Assim, o fotógrafo Gustavo Wittich veio cá a casa, e no final fez este retrato, que o site disponibiliza, enquadrando o morador no seu dia-a-dia.
 

 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Estamira

Sabia que tudo o que é imaginário existe, e é, e tem?

Estou querendo rever este filme. Estamira é um documentário de Marcos Prado lançado em 2015, sobre uma mulher com distúrbios mentais que trabalhou durante 22 anos no aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro.

Ela ficou conhecida como a "xamã do lixo", pois nas palavras do diretor, ela "acreditava ter a missão de trazer os princípios éticos básicos para as pessoas que viviam fora do Lixão."


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Tournée

Hoje meu porteiro me contou os detalhes do sonho que ele disse que teve comigo há uns dias atrás. Achei muito curioso, também, porque envolve o Diego, meu amigo de quem já falei neste blog, que filmei na favela do Sapo, e com quem combino de me encontrar às vezes aqui. 

O sonho era assim: Diego subia até o meu apartamento, e me agredia. Um vizinho ligava pra ele na portaria se queixando dos meus gritos de socorro, e então ele subia para me acudir. Ele forçava a entrada da porta, socava o Diego, e lançava-o depois pelas escadas do prédio. Passado uns dias, já eu mais calma, encontro-o na portaria e ele me fala que está em vésperas de fazer uma tournée saindo de São Paulo para Portugal, para se apresentar nos palcos cantando músicas do Tim Maia! Aí eu peço pra ir junto com ele, dizendo que preciso de um tempo para me recompor da história, e partimos os dois em tournée...

Depois de me contar o sonho, ele falou que costuma cantar como solista na igreja, e eu, que desconhecia esta sua faceta, pedi-lhe para me cantar alguma coisa. Eis o resultado.


domingo, 7 de dezembro de 2014

Carta de Lord Chandos

Hoje à tarde fui passear no jardim botânico, e aproveitei para ler a Carta de Lord Chandos de Hugo von Hofmannsthal, publicada num jornal de Berlim em 1902, e editada em livrinho pela Chão da Feira. Nesta carta fictícia datada de 22/09/1603, Chandos dirige-se ao filósofo Francis Bacon (considerado o fundador da ciência moderna), para explicar por que abandonou a sua promissora carreira literária. 
[...] é assim porque a língua na qual eu seria capaz não só de escrever mas também de pensar não é a língua latina, nem a inglesa, nem a italiana ou espanhola, mas sim uma língua de que não conheço uma única palavra, uma língua na qual as coisas mudas me falam, e na qual eu talvez um dia, no túmulo, tenha de responder perante um juiz desconhecido.
A carta surge como uma imagem dentro de um vasto panorama artístico e filosófico que marcou as primeiras décadas do século XX. A crítica da linguagem empreendida por Hofmannsthal é carregada de um ceticismo e de uma negatividade ambivalentes, num período de intensa crise de valores que culmina na Primeira Guerra Mundial. 

O motivo central da carta é o anúncio de uma desistência: Lord Chandos está informando seu amigo que, a partir daquele dia, nunca mais escreverá literatura. Chandos desconfia da linguagem, da cultura e da civilização — e o fato de estar utilizando justamente a linguagem para comunicar esse abandono é parte constituinte de sua angústia. Como deixar de lado algo que faz parte da própria natureza humana? “O meu caso é, em poucas palavras, o seguinte”, anuncia Lord Chandos: “perdi completamente a capacidade de pensar ou falar coerentemente sobre o que quer que seja”. 

O relato de Lord Chandos é construído sobre uma base de dúvida e incerteza: ao mesmo tempo que nega a utilidade das palavras, agarra-se firmemente a elas; ao mesmo tempo em que denuncia o vazio da vida e das relações entre os indivíduos, propõe um resgate da esperança e da convivência. Por exemplo: “Toda a existência me aparecia como uma grande unidade”, escreve Lord Chandos, “não me parecia haver oposição entre o mundo do espírito e o da matéria, nem entre seres delicados e brutos, entre arte e não-arte, solidão e convívio”. Num movimento esteticamente muito eficaz, Hofmannsthal faz a incerteza deslizar também em direção ao leitor: em que tempo estamos quando lemos a carta? Diante de qual crise a leitura nos posiciona, a de 1603, 1902 ou 2014? 

Pode ler a carta na íntegra, aqui 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Cadela Rosada

Adorei esse poema, dos últimos de Elizabeth Bishop (1911-1979),  americana com fortes ligações ao Brasil, que viveu aqui no Rio de Janeiro e em Ouro Preto. Embora concluído em 1979, "Cadela Rosada" começou a ser escrito muitos anos antes. Refere-se a um episódio famoso, de 1962, quando se denunciou que mendigos cariocas estariam sendo assassinados pelo Esquadrão da Morte, que lançava os cadáveres no rio da Guarda.

CADELA ROSADA

                         [Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada...
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia
é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos...
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror...
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô...

Nevermind (What Was It Anyway)

Boys go to Jupiter to get more stupider
Girls go to Mars become rock stars


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Nativo Relativo

Deixo aqui um texto que é dos meus preferidos do Viveiros de Castro, sobre o qual escrevi esta semana para Antropologia Contemporânea. Trata-se do artigo O Nativo Relativo publicado em 2002 na Revista Mana (Museu Nacional), onde ele tenta extrair as implicações teóricas do facto de que a Antropologia não apenas estuda relações, mas que o conhecimento assim produzido é ele próprio uma relação. Podemos perceber melhor as ideias do seu Perspetivismo, e a noção de Multinaturalidade, na linha de uma Antropologia para o novo século proposta a partir dos anos 70 por Roy Wagner em A Invenção da Cultura.
Outrem não é um elemento do campo perceptivo; é o princípio que o constitui, a ele e a seus conteúdos. Outrem não é, portanto, um ponto de vista particular, relativo ao sujeito (o ‘ponto de vista do outro’ em relação ao meu ponto de vista ou vice-versa), mas a possibilidade de que haja ponto de vista — ou seja, é o conceito de ponto de vista. Ele é o ponto de vista que permite que o Eu e o Outro acedam a um ponto de vista. 
O que acontece se recusarmos ao discurso do antropólogo sua vantagem estratégica sobre o discurso do nativo? O que se passa quando o discurso do nativo funciona, dentro do discurso do antropólogo, de modo a produzir reciprocamente um efeito de conhecimento sobre esse discurso? Quando a forma intrínseca à matéria do primeiro modifica a matéria implícita na forma do segundo? Tradutor, traidor, diz-se; mas o que acontece se o tradutor decidir trair sua própria língua? O que sucede se, insatisfeitos com a mera igualdade passiva, ou de facto, entre os sujeitos desses discursos, reivindicarmos uma igualdade ativa, ou de direito, entre os discursos eles mesmos? Se a disparidade entre os sentidos do antropólogo e do nativo, longe de neutralizada por tal equivalência, for internalizada, introduzida em ambos os discursos, e assim potencializada? Se, em lugar de admitir complacentemente que somos todos nativos, levarmos às últimas, ou devidas, consequências a aposta oposta — que somos todos ‘antropólogos’ (Wagner 1981:36), e não uns mais antropólogos que os outros, mas apenas cada um a seu modo, isto é, de modos muito diferentes?


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

olhar para o nada

Hoje é o dia do meu aniversário, e não fiz nada de especial além de ter ido na praia, trabalhei um pouquinho, pois estou em final de semestre na faculdade. E estive curtindo os skypes e as mensagens dos amigos de aquém e além-mar, que sabem sempre tão bem!... 

Uma das coisas que me fez sorrir hoje foi esta notícia do jornal O Globo, de um campeonato que aconteceu recentemente num parque em Seul, na Coreia do Sul. Trata-se de uma competição cujo objetivo é descobrir quem “melhor olha para o nada“. 

A disputa envolvia competidores que tinham que se esforçar para parecer que não tinham interesse por absolutamente nada.

 
Para vencer, o competidor tinha que parecer “aéreo” durante 3 horas, não fazer qualquer movimento repentino e manter o batimento cardíaco num ritmo baixo. A vencedora foi uma menina de 9 anos (foto acima). A mãe contou à imprensa sul-coreana ter levado a filha para a competição após a sua professora a ter alertado para o facto da aluna “estar longe” durante as aulas. 

sábado, 29 de novembro de 2014

o poema não pode quebrar a fidelidade à palavra dada, nem a
nova fé que pretende instaurar poderia________e nasce
um poema estranho de renúncia e traição____________,

um mundo por vir contido numa semente semântica de mostarda

LLANSOL

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Eduardo Berliner

Gostei de conhecer este pintor carioca, nascido em 1978, que teve sua primeira individual ano passado aqui no CCBB.

Diariamente, por volta de dez da manhã, Eduardo Berliner deixa a casa onde mora, no Humaitá, e caminha rumo ao ateliê, um pequeno sobrado em Botafogo, onde fica até seis ou sete da noite. Quando não segue esse roteiro básico, o artista diz sentir o mundo “acolchoado”:
— Quando pinto, crio atritos.
Sua pintura é formada em parte pelo que vê — muitas vezes nas caminhadas até o ateliê — em parte pelo que imagina.
— Tem dias em que só olho o mundo. Não tenho um assunto. Posso pintar uma cebola (aponta uma pequena tela no chão do ateliê) ou um limão (mostra uma aquarela na parede do sobrado). Quando estou desenhando, nem sempre vejo de onde vem (o trabalho). Às vezes, os desenhos e pinturas me ajudam a lidar com minhas inquietações e ansiedades e, portanto, é natural que não sejam amenas. Lido com o que nem sei o nome.








segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ocasião

hoje tava procurando no meu HD uma filmagem recente que fiz de um pessoal dançando na minha faculdade ao fim do dia, quando saía das aulas... estava uma luz linda, e as pessoas dançavam em par um forró delicioso por entre os pilares, com as árvores ao fundo... mas percebi que o perdi, que devo ter deletado os ficheiros do cartão quando precisei dele novamente para gravar áudio numa entrevista. em vez disso, encontrei uma filmagem minha e da Cláudia na pesquisa do filme A Ocasião, que fizemos em 2005, sobre o mundo do colecionismo... com esta professora de matemática que coleciona as surpresas dos ovos kinder, além de outros quebra cabeças. Analisando a pulsão do colecionador, ela diz que "Aquilo que uma pessoa deita para o lixo, tem outra que quer".

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Guarassuy

ontem tive mais uma entrevista com Guarassuy, minha vizinha indígena, com quem realizei um vídeo para o projeto Museu Encantador apresentado aqui no MAM o mês passado. Decidi desenvolver o projeto final de curso com ela, querendo explorar a relação entre sua identidade indígena e o poder do Estado. Minha ideia é tentar perceber até que ponto ela chama a si a origem do mito nacional ( já que foi trazida pelo trio de antropólogos mais famoso do Brasil, os irmãos Villas-Boas, fala que foi criada pelo ex-presidente do Brasil Jucelino Kubitschek em Diamantina, a quem chama de "segundo pai", e mais tarde se tornou inspetora da polícia (tendo inclusive uma vez morto a tiro dois homens e um cachorro)... quero perceber até que ponto suas histórias (inventadas ou não) podem ajudar a desconstruir a ideia de "identidade", e levar a pensar a atual luta pela demarcação das terras indígenas (que é sua principal preocupação e causa de sofrimento) em relação às demandas do projeto moderno (que, segundo as críticas de várias lideranças indígenas, é corroborado pelo governo de Dilma).

Ontem conheci finalmente o seu filho Carlos António (que falou que se sente aliviado por não ter recebido um nome indígena, tal como a mãe queria mas o pai não deixou...), e descobri várias coisas interessantes:

Descobri que o seu nome se escreve assim (ou pelo menos é assim que consta da caderneta da marinha) e não Guaraçuí como ela me havia dito... (segundo ela, o seu nome significa na língua nativa "Flor de Maracujá").

Que ela trabalhou como camareira para a Marinha Mercante desde 1963, altura da sua inscrição, quando tinha 25 anos, até pelo menos aos anos 90.

Ela me contou essa história muito louca de como se envolveu num tiroteio enquanto policial, e também falou que nunca teve realmente amigos na civilização, e que índio é muito "arredio". Prometeu falar mais sobre o tema da "inveja" num próximo encontro.



sábado, 15 de novembro de 2014

electron

Comprei meu orgão eletrónico quando me mudei para o centro do Rio, um yamaha electron dos anos 80, que encontrei num bazar em Benfica (que é também nome de freguesia em Lisboa, aliás onde eu nasci).  O órgão foi muito barato, e funcionava bem, por isso o comprei, porque achei bonito e adoro tentar tocar, aliás a minha grande paixão sempre foi a música. Quando cheguei em casa, cometi a asneira de o ligar na tomada errada, de 220v, e ele puff! pifou. Tive de chamar alguém para o consertar, e assim o barato saiu caro, mas o órgão funcionou de novo. Só que não totalmente, pois só tinha dinheiro para o arranjo parcial, então a caixa de ritmos ainda espera pelo senhor Jair Malaquias. 

De vez em quando experimento o som dele. Adoraria que viesse alguém cá a casa que soubesse tocar de facto para eu perceber melhor do que é capaz. Tenho de convidar alguém. Acho o som lindo!...

Ontem ao final do dia fiz esta improvisação, e a partir dela este vídeo inspirado pela visita de Diego, que veio de manhã me ajudar com o móvel

                                       


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Um dos meus poetas preferidos é o Manuel da Bandeira, pernambucano que sofria de tuberculose. 
Aqui alguns dos poemas que mais gosto:

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Mascarada 
 Você me conhece? (Frase dos mascarados de antigamente)

- Você me conhece?
- Não conheço não.
- Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores...
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
- Não conheço não.

- Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia...
Era a minha fala
Canto e persuasão...
Pois não me conheces?
- Não conheço não.
- Choraste em meus braços
- Não me lembro não.

- Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!

Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?

- Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.

A Morte Absoluta  

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

hoje é outro dia #2

"Se tomardes a vida com excessiva severidade, que atracção tem? Se a manhã não vos convidar a novas alegrias e se à noite não esperardes nenhum prazer, valerá a pena vestir-se e despir-se?"

hoje é outro dia #1

"Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?"

domingo, 9 de novembro de 2014

celebrar o abandono

Vim agora de Santa Teresa e como sempre neste bairro achei uns stencils e graffitis bem interessantes no caminho... Infelizmente só estava com meu celular, pelo que a qualidade do meu registro não foi a melhor, mas captei vários dizeres e formas que me chamaram a atenção, dialogando com meu pensamento, como "coração: não faça o crime se não vai cumprir a pena" ou "eu sou o chão pensando" numa nuvem rente ao asfalto, ou este "como celebrar o abandono?", ou ainda um bastante colorido que achei a cara do Rio: "o desapego é meu e isso ninguém tira de mim".
 

Me lembrei desta menina que fotografei uma vez no aterro, quando lia meu livro e relaxava no sol, antes de ir no MAM. Ela e a amiga tentavam subir na árvore onde eu estava encostada.


" Deixar de chorar é se dá conta de seu próprio abandono "

Conversa entre a Irmã e a Santinha
Paraíso Novela 2009

O tema do abandono já inspirou muita reflexão e obra de arte, desde o Jacques Brel ao par de sapatos velhos da pintura de Van Gogh, que Heidegger interpreta na sua A Origem da Obra de Arte assim:
Sob a sola encontra-se a solidão do caminho do campo que se perde quando a noite cai. Nesses sapatos vibra o apelo silencioso da terra, seu dom silencioso do grão que amadurece, sua secreta recusa de si mesmo no árido pousio dos campos invernais.

Aceitando o desafio do cartaz, aqui fica esta conhecida música da Piaf, na versão da Cássia Eller.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Diego

Conheci o Diego três semanas atrás, quando o meu carro ficou em pane aqui na minha rua, em baixo do viaduto. É um problema antigo de sobreaquecimento que o carro tem, e que espero ver resolvido esta semana. Ele me ajudou a colocar água no depósito à frente, e ficámos conversando um pouco. Passado uma semana, quando vinha a pé do metrô, no mesmo local, encontrei-o novamente, e falámos mais. Ele me contou que dormia na rua, que tinha sido expulso de casa por causa de uma televisão, que morava longe, a uma hora do Rio, e eu fui andando com ele, até que nos sentámos para comer. Ofereci-lhe o jantar e uma cerveja, e perguntei-lhe onde podia arrumar erva, eu que até nem fumo, não sei porquê, talvez porque me pareceu uma ponte possível, pois alguma coisa me intrigava nele. Combinámos ir comprar erva num lugar que ele conhecia. Passado uns dias ele me levou à favela do amarelinho, um lugar onde se vende a droga a céu aberto, 24h/ dia, em saquinhos em cima das mesas guardadas por traficantes armados, onde não entra polícia nem desconhecido. Eu não sabia o que esperar, mas confiei em Diego, e ele me guiou, me protegeu. A gente deu o braço lá dentro, e a coisa passou-se... fiquei esperando até vê-lo chegar com o equivalente a 25 reais de maconha num saquinho etiquetado "a melhor do amarelinho" em letra de computador. Eu levava minha câmara, pois ele me tinha dito que em seguida iríamos visitar a sua comunidade, e eu queria conhecer esta parte da cidade, imaginando ver um Rio que a gente sabe que existe mas quase nunca vê.  

E assim foi, continuámos no ônibus até Senador Camará, zona oeste da cidade, até à favela do Sapo.

Diego não falou muito sobre o que queria fazer, e eu segui-o. Fomos até sua casa, mas sua mãe não estava, e então ele me fez rodar a favela inteira, subindo o morro, eu notava seu orgulho em apresentar uma estrangeira, loira, eu de vestido de pano africano, escondendo minha câmara na bolsa. Mas confiava na sua bondade e instinto, desde o início. Parámos depois em casa de um tatuador seu amigo, que lhe fez a sua 19ª tatuagem: o ícone da NBA, o Michael Jordan a afundar a bola de basket no seu pescoço.



Diego me levou depois a casa de um outro amigo, o Alexandre, e aí me contou como é viver numa favela comandada pelo tráfico, e das diferenças entre viver em uma favela comandada pela milícia, ou numa favela pacificada pelas UPP´s. Pelo que percebi cada uma tem a sua lógica própria, mas todas giram à volta de um só juiz: o dinheiro.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Haicai do Brasil

Hoje à tarde passei pela Biblioteca Parque Estadual onde costumo ir para assistir ao Encontro Autor-Leitor com Adriana Calcanhotto, que falou sobre sua mais recente antologia de poesia, Haicai do Brasil. Depois de no ano passado ter lançado uma antologia de poesia ilustrada para crianças de qualquer idade, Adriana surpreendeu-se com a quantidade de haicais que existiam no Brasil e de como essa forma tradicional japonesa havia influenciado os poetas daqui, e, não querendo utilizá-la nesse livro por receio de confundirem sua simplicidade com o universo infantil, decidiu dedicar-lhe um novo livro. São 33 autores, de Paulo Leminski a Drummond, passando por Mário Quintana ou Millôr Fernandes, que se dedicaram aos versos de três linhas e 17 sílabas, a forma de poesia hoje mais praticada no Brasil (mais que o soneto no século XIX).


É bem curiosa a história da ilustração do livro: Adriana fez os desenhos no quarto de Fernando Pessoa, quando estava em Lisboa a convite da Fundação dedicada à obra do poeta.

"Era meu último dia para enviar os desenhos para a editora. Então abri o caderno na cômoda em que Pessoa escrevia. Fiz quase todos os desenhos ali, naquela cômoda onde foram escritas tantas maravilhas."




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Eleições

ontem a presidente Dilma foi reeleita por uma margem muito curta, como sabemos, em relação ao candidato Aécio Neves, do PSDB, partido fundado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que se diz de centro-esquerda, adepto de um "liberalismo social". Depois de uma campanha super disputada, em que vimos ódios regionalistas exacerbados, principalmente contra os nordestinos que votaram pela continuação do assistencialismo do PT que tirou a região do mapa da fome, coxinhas loucas falando que vão emigrar para os EUA, diferenças de "estilo" espelhadas em vídeo na rede, como por exemplo neste das últimas manifestações da campanha em Belo Horizonte, fala-se agora em desunião, num país dividido, que Dilma terá de governar com muito jogo de cintura e nova diplomacia. Infelizmente não percebo nada de diplomacia, por isso não posso comentar se acho que ela tem hipótese, se não. 

também suponho que este blog não existe para isso. 

depois da palestra-doação ao Museu Encantador de André Lepecki no sábado, e do resultado das eleições, eu estava a pensar no problema eterno da auto-estima, que o homem para ser livre tem de saber antes de mais cuidar-se, permitir-se, aturar-se, e estava a pensar na auto-estima individual e na auto-estima de um país, relacionando-a com esta ideia que ele fala do Passado, de que é "preciso redimir os erros do passado", ao invés de pensar e apontar para um futuro otimista, que ninguém sabe qual é.


Enfim, fiquei pensando nisto outra vez depois de ver o último vídeo do canal de humor Porta dos Fundos, em que um fulano assaltado pela culpa de ter votado em Pezão, pede pra justificar seu voto junto à banca. Pezão foi o candidato vencedor a governador do Estado do Rio de Janeiro, naquela que foi a quarta maior coligação do país, com a participação de 18 partidos... Então, talvez a culpa do eleitor seja proporcional à dimensão da representação possível que ele pode obter/dar através desta eleição. 

Talvez a democracia sirva as metáforas de um pé:
Luiz Fernando de Souza é mais conhecido como Pezão, devido ao fato de calçar 47,5. “Tinha dificuldade quando era moleque. Eu achava o melhor sapato maior e botava no pé. Era uma tragédia. Eu estourava os meus sapatos. Nem sabia quanto calçava” “Eu era goleiro, e as pessoas falavam que eu agarrava com o pé. Diziam que era só eu abrir os pés que já fechava o gol”, diverte-se. “Nunca me importei com o apelido. Hoje, ninguém sabe quem é Luiz Fernando”. 

Em janeiro de 2011, na Região Serrana, a mais afetada pelas enchentes e deslizamentos de terra no Rio de Janeiro, Pezão estava vistoriando a região com sapatos cobertos de lama ao lado da presidente Dilma Rousseff. Ela perguntou ‘Pezão, você não veio de bota?’, ele respondeu que não tinha bota com seu número. Ela disse que na Petrobrás tinha e lhe deu dois pares.
Depois de saber o resultado pela televisão, saí à rua com minha câmara para filmar, com vontade de ir ver o trio elétrico na Lapa, curiosa com os ânimos. Mas estava se instalando uma chuva meio chata, e eu estava cansada das noitadas do fim-de-semana, pelo que fiquei tomando um chop no café da esquina. Tudo o que filmei foi a reação deste grupo do sul, de Florianópolis, de passagem na cidade.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ainda o Roy Wagner

em vésperas de prova, aqui partilho um excerto que de certo modo dialoga com o post anterior, ao continuar a problematizar a noção de natureza e cultura como dialética entre invenção e convenção, o que para os norte-americanos existe em termos diferentes que para os Daribi da Nova Guiné. Roy Wagner estabelece um paralelo entre a magia que serve de motivação à atividade produtora do povo melanésio, com a magia da propaganda na cultura norte-americana, e seus efeitos de enorme relativização que levam a um convencionalismo que ele critica.

e para quem quer uma coisa mais light e agradável aqui um daiquiri de morango, uma canção, pode criar um passatempo com palavras, ou ainda ler uma entrevista ao autor de quando ele passou pelo Brasil em 2011.


A Magia da Propaganda

O que a propaganda nos pede (e eventualmente nos compele) a fazer é viver em um mundo de "magia" tecnológica, onde maravilhas fabricadas pelo homem curam males e fazem da rotina de todos os dias um milagre contínuo. A propaganda nos convida a tornar nossa a magia que há nela. Assim como o agricultor daribi precisa acreditar na efetividade de seus encantamentos para que eles refocalizem com sucesso sua atividade e tragam recompensas reais, o consumidor precisa confiar numa mística da eficácia química e mecânica para que sua própria "magia" alcance seus fins. O foco de poder da vida cotidiana daribi está na força das palavras, no poder da invenção e de um saber arcano; o da vida cotidiana norte-americana, para a maior parte das pessoas, está no uso da tecnologia para resolver seus problemas. Indiscutivelmente, e às vezes de modo bastante inconsciente, atribuímos toda sorte de qualidades "naturais" a substâncias químicas e máquinas, e então as incorporamos em nossas tarefas de modo a fazer uso dessas qualidades. Diz-se que os computadores têm "inteligência": nós os colocamos para trabalhar resolvendo cálculos e arranjando encontros amorosos; tanques de guerra e armas automáticas têm capacidades destrutivas: travamos nossas guerras em grande parte com eles; drogas têm poder sobre a terra prometida da constituição física humana: nós as utilizamos para aumentar as habilidades de uma "mente" supostamente física. Boa parte de nosso pensamento e nossa ação equivale a uma habitual objetificação da capacidade humana - ou da própria "natureza", em termos tecnológicos. Chegamos mesmo a conceber os seres vivos mecanicamente como "sistemas" orgânicos, a criatividade como "solução de problemas" e a própria vida como um "processo". Contudo, uma Cultura "naturalizada" e particularizada e uma natureza organizada e sistematizada fazem parte de um mundo altamente relativizado, cuja distinção crucial entre "o que fazemos" e "o que somos" vem sendo substancialmente erodida e desmantelada pela troca de características. As formas convencionais de nossa Cultura, inclusive a tecnologia, nos diferenciam e separam quase tanto quanto unificam um controle comum da "natureza"; a "natureza" particular e diferenciante que nos cerca (o Meio Ambiente) e infunde (o "sistema" comportamental humano) unifica tanto quanto traça distinções. Em consequência, a objetificação de cada um por meio do outro é altamente tautológica: sistematizamos sistemas e particularizamos particularidades. A frustração engendrada por tal mundo, que não pode nem realizar nem criar seus próprios significados de forma efetiva, rapidamente se resolve numa apatia motivacional quanto à Cultura e à sua percepção tradicional do "eu" e numa profunda reação de antipatia diante de soluções tradicionais, numa necessidade de "fazer algo a respeito" das coisas. Essa é a necessidade que requer e propicia a criação comercial de necessidades em que consiste a propaganda. Para que seja bem-sucedida, a propaganda requer tanto uma apatia em relação à Cultura tradicional, quanto a frustração de "querer fazer algo a respeito".

A propaganda se redime da acusação de ser excessivamente "séria", de manipular as necessidades e os desejos das pessoas, sendo engraçada. Um comercial engraçado é um bom comercial: ele se safa do fato embaraçoso de que é "apenas um comercial" fornecendo entretenimento (outros fornecem "notícias" ou redenção). Sob a máscara do entretenimento, da informação ou da redenção, a propaganda fornece sua pequena contribuição ao trabalho de criar a Cultura criando sua ambiência, sustentando "a economia" ao renovar nossa credibilidade. Junto com as outras facetas da cultura interpretativa, ela nos salva da apatia e do caos da relativização e da ambiguidade à custa de sua própria seriedade - faz da distinção entre o inato e o artificial uma distinção real ao refestelar-se em sua artificialidade.

Assim, nossa ostensiva interação entre Cultura e natureza é, de fato, uma dialética da convenção continuamente reinterpretada pela invenção e da invenção continuamente precipitando a convenção. Mesmo essa renovação, porém, está constantemente perdendo terreno, pois na medida em que os efeitos da interpretação se tornam cada vez mais óbvios, a distinção essencial (Cultura versus natureza) que ela precipita sofre uma relativização cada vez maior. Tornamo-nos cada vez mais dependentes da interpretação e do entusiasmo pela renovação que a inter-relação gera. A Cultura sucumbe ao culto da Cultura porque tem de fazê-lo. E se os ecologistas, com seu instinto certeiro para ir ao fundo da moralidade e da seriedade, falam da coisa toda em termos de "vida" e "sobrevivência", deveríamos considerar uma coisa. Um rio ou um lago poluído (poluição é Cultura do ponto de vista da natureza) fervilha de vida. Trata-se de "sobrevivência" no máximo de sua efervescência: onde umas poucas células ganhavam a vida com dificuldade, agora pululam milhões. Uma "cultura de massa" bacteriológica, de fato, mas uma "vida" que ninguém realmente quer.

segunda natureza

Em entrevista à revista Cult no início deste ano, o filósofo francês Bruno Latour, conhecido pela sua análise do Projeto Moderno do Ocidente, que segundo ele nunca existiu, fala-nos do sentido iconoclasta dos brasileiros, e da importância da mediação para a ciência:   

" O respeito pelos meios, pelas mediações, é algo que os brasileiros sabem fazer muito melhor do que os franceses. Nós, euro-americanos, esvaziamos inteiramente os meios para se buscar a verdade. E aqui novamente a teoria da ciência tem uma participação, pois para respeitar as ciências, temos que respeitar os meios que fazem a ciência. Isso parece de uma banalidade imensa, mas o fato é que isso resta sendo um assunto sobre o qual há ainda muita controvérsia, pois existem ainda pessoas que querem a ciência sem respeitar os meios. Os “modernos” são realmente bizarros! "

para mim ela conversou também com o livro que ando a ler, A Invenção da Cultura, do antropólogo americano Roy Wagner:

"A necessidade da invenção é criada pela dialética e pela interdependência que ela impõe entre os vários contextos da cultura.  Uma vez que “esgotamos” nossos símbolos no processo de usá-los, precisamos forjar novas articulações simbólicas se queremos reter a orientação que possibilita o próprio significado.  Nossa Cultura coletiva cria e sustenta uma imagem e uma percepção da “natureza” e da força natural, enquanto nossa busca compensadora por conhecimento e experiência em domínios não Culturais equivale a uma invenção da Cultura. Viver na Cultura e contar com ela cria a necessidade de conhecimento e experiência da “natureza” (inclusive do impulso e da “natureza humana”); observar e experienciar a natureza torna a Cultura significativa e necessária. A necessidade pode ser mascarada como a necessidade de conter impulsos internos e “forças da natureza” externas ou, inversamente, como uma necessidade de “relaxar”, “afastar-se de tudo”, ou descobrir novos fatos, mas na verdade ela é uma propriedade da dialética por meio da qual o significado é e precisa ser continuamente reinventado.

A tendência da cultura é manter-se a si própria, reinventando-se. Mas tenho observado que os controles convencionais da moderna cultura norte-americana são altamente relativizados – como dispositivos de ordenação e unificação, são eles próprios desordenados e particularizados: nossa ciência e nossa tecnologia são altamente especializadas, nossas funções administrativas são irremediavelmente burocratizadas, nossos símbolos nacionais são indiscutivelmente ambivalentes. A Cultura é ambígua (e a antropologia em grande medida existe por explorar essa ambiguidade). De resto, isso não se deve ao roubo de nossos fluidos vitais pelos comunistas, ao relaxamento da disciplina, aos espoliadores que espoliam O Meio Ambiente, aos Jovens Mal-Agradecidos por Sua Educação, ainda que alguns desses fatores sejam sintomas importantes. Isso decorre diretamente do facto de que nos agarramos à nossa Cultura – às suas orgulhosas tradições, às suas técnicas poderosas, à sua história e à sua literatura, às suas impressionantes fileiras de Grandes Nomes – acima de todas as tentativas de reinventá-la.

Embora nada me vá fazer deixar de amar Mozart, Beethoven e as Sinfonias Londrinas de Haydn, essa insistência na Cultura, e a relativização que ela acarreta, força os americanos a viver numa contínua frustração de soluções que se desfazem em suas próprias mãos e numa contínua tensão de “querer fazer algo a respeito” das coisas. "    


Ora, o que me parece mais interessante na entrevista de Latour, é quando ele fala do papel da natureza econômica na construção do projeto da modernidade:

" Meu argumento é que, entre os chamados “modernos”, não foi sobre natureza no sentido científico que eles realmente se ocuparam. A natureza interessa aos cientistas, e portanto, a muita pouca gente. É a natureza no sentido da economia que teve um papel importante na modernização, no que chamamos de marchandisation, que foi inventada entre 1750 e 1850 (período sobre o qual Foucault escreveu excelentes trabalhos). Esse é o momento da criação da natureza econômica. Os argumentos que usamos para falar da natureza não são os dos biólogos. Os biólogos sempre souberam que a natureza da qual eles falam faz um mundo de coisas, muito além do que faz “a natureza” dos filósofos.  Mas aprendemos a crer piamente que a natureza econômica existia e que ela era constituída por uma infraestrutura, um regime de bens. Gabriel Tarde mostra, em A Psicologia Econômica, como a economia é tratada como uma segunda natureza. O livro é uma crítica dessa postura: da natureza da economia, que é preciso repolitizar em todos os sentidos. Isso é extremamente difícil, pois cremos que há realmente uma natureza econômica e poucos a repolitizam, muito menos os chamados economistas críticos. Eles acham que as leis da economia são leis alternativas. A crença nessa economia é quase universal. Somos menos agnósticos em matéria de economia, mesmo quando somos anti-liberais."

Pessoalmente eu acho esta crítica à natureza econômica uma das coisas mais importantes a serem feitas, sensação que tive a partir da disciplina de Antropologia Económica, na qual estudávamos as relações da economia no tecido social, suas apropriações simbólicas, presentes no livro de Marcel Mauss Ensaio sobre a Dádiva, ou na obra de Marshal Sallins.

Foi importante por isso na época ler Entre a Dádiva e a Mercadoria. Ensaio de Antropologia Económica, do professor Adolfo Yáñez Casal, que situa historicamente o pensamento liberal, e a filosofia capitalista que Max Weber mostra estar associada à religião protestante, etc. Este livro ajuda-nos a perceber uma série de coisas que acho têm a ver com o que Latour fala que se tornou o economicismo, uma segunda natureza da qual talvez nunca tenhamos aprendido a duvidar...
 
E ele fá-lo resgatando a dimensão da dádiva presente nas nossas vidas, quer seja na família, na arte, ou na religião, através da troca simbólica e gratuita, mostrando como ela continua permeando os interesses, de formas originais, muitas vezes negadas e desapercebidas por nós. Podemos entender talvez melhor como o valor que atribuímos às coisas muitas vezes não vêm de uma decisão reflectida, mas sim de uma estrutura de obrigação e dever inculcada em nós... 




anúncio no jornal Ocasião de 2007, de um homem que disponibiliza suas mãos para tentar equilibrar a energia de quem o procura, sem pedir por isso contribuição monetária




anúncio de uma mulher que filmámos em 2007 cantando na prisão de Leiria em Portugal, e que se disponibiliza para ir também na casa das pessoas cantar

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Hoje na hora do almoço estava em cima da mesa este livro de fotografia : Anónimos + Famosos, do fotógrafo Gustavo Malheiros, sobre pessoas comuns que se destacaram no Rio de Janeiro, virando personagens queridas, por animarem as ruas e o quotidiano da cidade. 

Lá consta o incrível Jacaré dos Patins que eu e minha amiga Fernanda vimos uma vez no Leme, o ‘Xuxa do Sinal’, figura conhecida dos motoristas que ficam presos nos engarrafamentos da Barra da Tijuca, que imita a apresentadora Xuxa com peruca loura e muita maquilhagem, Natasha Jascalevich, a ‘Mulher Cobra’ contorcionista que se apresenta na Praça da Bandeira, ou o Sheik do Pepê, um beduíno de lenço árabe, um camelo e uma odalisca sobre a areia. 

Lançado em Março deste ano, na verdade o livro é uma 2ª edição que dá continuidade a um projeto de 2002: "Ainda existiam muitos outros personagens para serem mostrados. É, na realidade, um projeto que nunca acaba”, diz Malheiros. 


Sheik do Pepê / Marco Antonio Maciel
Praia do Pepê, Barra

Um beduíno de lenço árabe, um camelo e uma odalisca sobre a areia. Seria um clichê oriental, mas o beduíno é paulista de Campos do Jordão, descendente de italianos, o camelo é de fibra de vidro e a odalisca é dançarina de samba. Marquinhos tem 60 anos e trabalha na areia, vestido de árabe, há 30. Diz com segurança que é o maior vendedor de praia do Brasil, chegando a vender mil salgados – entre esfirras, quibes e caftas – em três horas no verão.


São fotografadas pessoas como o Índio de Niterói, que se apresenta caracterizado em qualquer lugar ou horário; o vendedor de amendoim que trabalha de terno num viaduto, mesmo naqueles dias em que os termômetros marcam mais de 40 graus, o gari da Comlurb que alegra o desfile de Carnaval no Sambódromo; Dona Suluca, de 75 anos de idade, uma das mais tradicionais baianas da Mangueira; ou Zé das Medalhas, balconista da Pharmácia do Leme que anda com quilos de cordões pendurados no pescoço. Alguns fazem ponto há décadas no mesmo local, como seu Francisco, morador de São João de Meriti, que vende rosas há 39 anos no bares da zona sul; outros representam a história do Centro da cidade, como Seu José, garçom da Confeitaria Colombo.













segunda-feira, 13 de outubro de 2014

continuei lendo o rOY wAGNer, me preparando para a prova de Antropologia Contemporânea.

"A crítica pós-moderna diz respeito a nós mesmos, ou seja, aos antropólogos. Clifford talvez seja o exemplo mais nítido. A suposição de que “somos todos nativos” significa isto: ‘nós', antropólogos, também somos nativos. É uma afirmação que recai sobre o Mesmo. A ideia de Wagner, “somos todos antropólogos”, ao contrário, recai sobre o Outro. Ela quer dizer: ‘eles', os nativos, também são antropólogos. Os pós-modernos proclamavam a condição nativa do antropólogo, embora pareçam claramente estar pensando: somos nativos, tudo bem, mas somos mais alguma coisa. Wagner, ao proclamar a condição antropológica do nativo sugere uma implicação mais interessante: eles são antropólogos, mas não são apenas isso. Ou seja, eles são antropólogos, mas de modos muito diversos do que supõe nossa vã epistemologia." (tirado da resenha de Flávio Gordon)

e provei uma cerveja excelente: DaDoBier, a primeira microcervejaria do Brasil, fundada em 1995 no sul

fiquei também com vontade de conhecer melhor o Jarmuch dos primeiros tempos (quanto a mim o melhor) porque me mandaram este vídeo com uma cena do seu primeiro filme, Permanent Vacation, que ele fez em 16mm logo após sair da escola de cinema.