Língua

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

2015

para este próximo ano, que espero seja de afirmação e mais sossego no Rio, fiz uma lista das minhas metas:


ir filmar na gráfica, apresentação do livro, procurar apoios para o filme, produtoras, concorrer ao ICA

continuar a filmar o Diego, ir ao arquivo nacional, voltar na favela, desenvolver o curta que estou a fazer com ele

pesquisa com a Guarassuy: entrevistar o filho, ir falar com o cara do museu do índio sobre o filme do alemão, guardas rurais, marinha mercante, polícia civil, ler o marco antonio e o pierre clastres sobre o ritual

fazer a aula sobre os Guarani da Ana e Joana e as opcionais que me faltam (ética com o Cláudio? Behaviorismo com o Valmir?)

aulas livres no Museu Nacional

 
voltar no boxe tailandês, inscrever-me no pilates, massagem com o miguel

usar mais a academia e a sauna do prédio!

ir ao santo daime, e aos terreiros de umbanda e camdomblé

ir dois meses inteirinhos no verão a portugal para matar as saudades

comer melhor cozinhando!

ver mais cinema brasileiro

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Grateful

Assisti recentemente a uma conversa entre a Patti Smith e o cineasta David Lynch, em que eles trocam impressões sobre suas vidas e trabalho, e achei curiosa a história que Patti conta sobre a origem da canção "Grateful", que é uma homenagem ao cantor e guitarrista dos Grateful Dead, Jerry Garcia. Ela conta que num dia em que estava muito triste e deprimida, sozinha na sua sala e a pensar no aparecimento dos seus cabelos grisalhos, visualizou Jerry sorrindo para ela, e a canção apareceu já pronta na sua cabeça.

Aqui fica esta interpretação ao vivo na Biblioteca de Nova Iorque, em 2010. 

Patti Smith Performs Grateful
  

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Buika

eu não acredito na liberdade. creio que a liberdade é um mau sonho, é um pesadelo. creio que dependemos do ar para respirar, de que animais morram para podermos comer, de que alguém nos queira para nos sentirmos seguros. de que tudo esteja bem para sentirmos paz. creio que somos dependentes, creio que somos escravos! não creio que tenhamos capacidade para a liberdade. o que acredito é que temos a possibilidade de ter a chave da nossa cela, da prisão. eu quero ser a dona, a proprietária da chave da minha prisão. 
Ontem vi no Canal Brasil esta maravilhosa entrevista com a cantora Concha Buika realizada aqui na cidade num dia de chuva. Que seu sorriso e sua música nos acompanhem sempre!




domingo, 14 de dezembro de 2014

Relação Airbnb

Há duas semanas atrás me ligaram da Airbnb, conhecido site de busca de acomodação temporária, dizendo que meu apartamento tinha sido selecionado para receber a visita de um fotógrafo profissional. Achei curioso, pois não sabia que essa prática existia. Assim, o fotógrafo Gustavo Wittich veio cá a casa, e no final fez este retrato, que o site disponibiliza, enquadrando o morador no seu dia-a-dia.
 

 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Estamira

Sabia que tudo o que é imaginário existe, e é, e tem?

Estou querendo rever este filme. Estamira é um documentário de Marcos Prado lançado em 2015, sobre uma mulher com distúrbios mentais que trabalhou durante 22 anos no aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro.

Ela ficou conhecida como a "xamã do lixo", pois nas palavras do diretor, ela "acreditava ter a missão de trazer os princípios éticos básicos para as pessoas que viviam fora do Lixão."


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Tournée

Hoje meu porteiro me contou os detalhes do sonho que ele disse que teve comigo há uns dias atrás. Achei muito curioso, também, porque envolve o Diego, meu amigo de quem já falei neste blog, que filmei na favela do Sapo, e com quem combino de me encontrar às vezes aqui. 

O sonho era assim: Diego subia até o meu apartamento, e me agredia. Um vizinho ligava pra ele na portaria se queixando dos meus gritos de socorro, e então ele subia para me acudir. Ele forçava a entrada da porta, socava o Diego, e lançava-o depois pelas escadas do prédio. Passado uns dias, já eu mais calma, encontro-o na portaria e ele me fala que está em vésperas de fazer uma tournée saindo de São Paulo para Portugal, para se apresentar nos palcos cantando músicas do Tim Maia! Aí eu peço pra ir junto com ele, dizendo que preciso de um tempo para me recompor da história, e partimos os dois em tournée...

Depois de me contar o sonho, ele falou que costuma cantar como solista na igreja, e eu, que desconhecia esta sua faceta, pedi-lhe para me cantar alguma coisa. Eis o resultado.


domingo, 7 de dezembro de 2014

Carta de Lord Chandos

Hoje à tarde fui passear no jardim botânico, e aproveitei para ler a Carta de Lord Chandos de Hugo von Hofmannsthal, publicada num jornal de Berlim em 1902, e editada em livrinho pela Chão da Feira. Nesta carta fictícia datada de 22/09/1603, Chandos dirige-se ao filósofo Francis Bacon (considerado o fundador da ciência moderna), para explicar por que abandonou a sua promissora carreira literária. 
[...] é assim porque a língua na qual eu seria capaz não só de escrever mas também de pensar não é a língua latina, nem a inglesa, nem a italiana ou espanhola, mas sim uma língua de que não conheço uma única palavra, uma língua na qual as coisas mudas me falam, e na qual eu talvez um dia, no túmulo, tenha de responder perante um juiz desconhecido.
A carta surge como uma imagem dentro de um vasto panorama artístico e filosófico que marcou as primeiras décadas do século XX. A crítica da linguagem empreendida por Hofmannsthal é carregada de um ceticismo e de uma negatividade ambivalentes, num período de intensa crise de valores que culmina na Primeira Guerra Mundial. 

O motivo central da carta é o anúncio de uma desistência: Lord Chandos está informando seu amigo que, a partir daquele dia, nunca mais escreverá literatura. Chandos desconfia da linguagem, da cultura e da civilização — e o fato de estar utilizando justamente a linguagem para comunicar esse abandono é parte constituinte de sua angústia. Como deixar de lado algo que faz parte da própria natureza humana? “O meu caso é, em poucas palavras, o seguinte”, anuncia Lord Chandos: “perdi completamente a capacidade de pensar ou falar coerentemente sobre o que quer que seja”. 

O relato de Lord Chandos é construído sobre uma base de dúvida e incerteza: ao mesmo tempo que nega a utilidade das palavras, agarra-se firmemente a elas; ao mesmo tempo em que denuncia o vazio da vida e das relações entre os indivíduos, propõe um resgate da esperança e da convivência. Por exemplo: “Toda a existência me aparecia como uma grande unidade”, escreve Lord Chandos, “não me parecia haver oposição entre o mundo do espírito e o da matéria, nem entre seres delicados e brutos, entre arte e não-arte, solidão e convívio”. Num movimento esteticamente muito eficaz, Hofmannsthal faz a incerteza deslizar também em direção ao leitor: em que tempo estamos quando lemos a carta? Diante de qual crise a leitura nos posiciona, a de 1603, 1902 ou 2014? 

Pode ler a carta na íntegra, aqui 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Cadela Rosada

Adorei esse poema, dos últimos de Elizabeth Bishop (1911-1979),  americana com fortes ligações ao Brasil, que viveu aqui no Rio de Janeiro e em Ouro Preto. Embora concluído em 1979, "Cadela Rosada" começou a ser escrito muitos anos antes. Refere-se a um episódio famoso, de 1962, quando se denunciou que mendigos cariocas estariam sendo assassinados pelo Esquadrão da Morte, que lançava os cadáveres no rio da Guarda.

CADELA ROSADA

                         [Rio de Janeiro]

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada...
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia
é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos...
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror...
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô...

Nevermind (What Was It Anyway)

Boys go to Jupiter to get more stupider
Girls go to Mars become rock stars


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Nativo Relativo

Deixo aqui um texto que é dos meus preferidos do Viveiros de Castro, sobre o qual escrevi esta semana para Antropologia Contemporânea. Trata-se do artigo O Nativo Relativo publicado em 2002 na Revista Mana (Museu Nacional), onde ele tenta extrair as implicações teóricas do facto de que a Antropologia não apenas estuda relações, mas que o conhecimento assim produzido é ele próprio uma relação. Podemos perceber melhor as ideias do seu Perspetivismo, e a noção de Multinaturalidade, na linha de uma Antropologia para o novo século proposta a partir dos anos 70 por Roy Wagner em A Invenção da Cultura.
Outrem não é um elemento do campo perceptivo; é o princípio que o constitui, a ele e a seus conteúdos. Outrem não é, portanto, um ponto de vista particular, relativo ao sujeito (o ‘ponto de vista do outro’ em relação ao meu ponto de vista ou vice-versa), mas a possibilidade de que haja ponto de vista — ou seja, é o conceito de ponto de vista. Ele é o ponto de vista que permite que o Eu e o Outro acedam a um ponto de vista. 
O que acontece se recusarmos ao discurso do antropólogo sua vantagem estratégica sobre o discurso do nativo? O que se passa quando o discurso do nativo funciona, dentro do discurso do antropólogo, de modo a produzir reciprocamente um efeito de conhecimento sobre esse discurso? Quando a forma intrínseca à matéria do primeiro modifica a matéria implícita na forma do segundo? Tradutor, traidor, diz-se; mas o que acontece se o tradutor decidir trair sua própria língua? O que sucede se, insatisfeitos com a mera igualdade passiva, ou de facto, entre os sujeitos desses discursos, reivindicarmos uma igualdade ativa, ou de direito, entre os discursos eles mesmos? Se a disparidade entre os sentidos do antropólogo e do nativo, longe de neutralizada por tal equivalência, for internalizada, introduzida em ambos os discursos, e assim potencializada? Se, em lugar de admitir complacentemente que somos todos nativos, levarmos às últimas, ou devidas, consequências a aposta oposta — que somos todos ‘antropólogos’ (Wagner 1981:36), e não uns mais antropólogos que os outros, mas apenas cada um a seu modo, isto é, de modos muito diferentes?


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

olhar para o nada

Hoje é o dia do meu aniversário, e não fiz nada de especial além de ter ido na praia, trabalhei um pouquinho, pois estou em final de semestre na faculdade. E estive curtindo os skypes e as mensagens dos amigos de aquém e além-mar, que sabem sempre tão bem!... 

Uma das coisas que me fez sorrir hoje foi esta notícia do jornal O Globo, de um campeonato que aconteceu recentemente num parque em Seul, na Coreia do Sul. Trata-se de uma competição cujo objetivo é descobrir quem “melhor olha para o nada“. 

A disputa envolvia competidores que tinham que se esforçar para parecer que não tinham interesse por absolutamente nada.

 
Para vencer, o competidor tinha que parecer “aéreo” durante 3 horas, não fazer qualquer movimento repentino e manter o batimento cardíaco num ritmo baixo. A vencedora foi uma menina de 9 anos (foto acima). A mãe contou à imprensa sul-coreana ter levado a filha para a competição após a sua professora a ter alertado para o facto da aluna “estar longe” durante as aulas.