Língua

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Haicai do Brasil

Hoje à tarde passei pela Biblioteca Parque Estadual onde costumo ir para assistir ao Encontro Autor-Leitor com Adriana Calcanhotto, que falou sobre sua mais recente antologia de poesia, Haicai do Brasil. Depois de no ano passado ter lançado uma antologia de poesia ilustrada para crianças de qualquer idade, Adriana surpreendeu-se com a quantidade de haicais que existiam no Brasil e de como essa forma tradicional japonesa havia influenciado os poetas daqui, e, não querendo utilizá-la nesse livro por receio de confundirem sua simplicidade com o universo infantil, decidiu dedicar-lhe um novo livro. São 33 autores, de Paulo Leminski a Drummond, passando por Mário Quintana ou Millôr Fernandes, que se dedicaram aos versos de três linhas e 17 sílabas, a forma de poesia hoje mais praticada no Brasil (mais que o soneto no século XIX).


É bem curiosa a história da ilustração do livro: Adriana fez os desenhos no quarto de Fernando Pessoa, quando estava em Lisboa a convite da Fundação dedicada à obra do poeta.

"Era meu último dia para enviar os desenhos para a editora. Então abri o caderno na cômoda em que Pessoa escrevia. Fiz quase todos os desenhos ali, naquela cômoda onde foram escritas tantas maravilhas."




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Eleições

ontem a presidente Dilma foi reeleita por uma margem muito curta, como sabemos, em relação ao candidato Aécio Neves, do PSDB, partido fundado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que se diz de centro-esquerda, adepto de um "liberalismo social". Depois de uma campanha super disputada, em que vimos ódios regionalistas exacerbados, principalmente contra os nordestinos que votaram pela continuação do assistencialismo do PT que tirou a região do mapa da fome, coxinhas loucas falando que vão emigrar para os EUA, diferenças de "estilo" espelhadas em vídeo na rede, como por exemplo neste das últimas manifestações da campanha em Belo Horizonte, fala-se agora em desunião, num país dividido, que Dilma terá de governar com muito jogo de cintura e nova diplomacia. Infelizmente não percebo nada de diplomacia, por isso não posso comentar se acho que ela tem hipótese, se não. 

também suponho que este blog não existe para isso. 

depois da palestra-doação ao Museu Encantador de André Lepecki no sábado, e do resultado das eleições, eu estava a pensar no problema eterno da auto-estima, que o homem para ser livre tem de saber antes de mais cuidar-se, permitir-se, aturar-se, e estava a pensar na auto-estima individual e na auto-estima de um país, relacionando-a com esta ideia que ele fala do Passado, de que é "preciso redimir os erros do passado", ao invés de pensar e apontar para um futuro otimista, que ninguém sabe qual é.


Enfim, fiquei pensando nisto outra vez depois de ver o último vídeo do canal de humor Porta dos Fundos, em que um fulano assaltado pela culpa de ter votado em Pezão, pede pra justificar seu voto junto à banca. Pezão foi o candidato vencedor a governador do Estado do Rio de Janeiro, naquela que foi a quarta maior coligação do país, com a participação de 18 partidos... Então, talvez a culpa do eleitor seja proporcional à dimensão da representação possível que ele pode obter/dar através desta eleição. 

Talvez a democracia sirva as metáforas de um pé:
Luiz Fernando de Souza é mais conhecido como Pezão, devido ao fato de calçar 47,5. “Tinha dificuldade quando era moleque. Eu achava o melhor sapato maior e botava no pé. Era uma tragédia. Eu estourava os meus sapatos. Nem sabia quanto calçava” “Eu era goleiro, e as pessoas falavam que eu agarrava com o pé. Diziam que era só eu abrir os pés que já fechava o gol”, diverte-se. “Nunca me importei com o apelido. Hoje, ninguém sabe quem é Luiz Fernando”. 

Em janeiro de 2011, na Região Serrana, a mais afetada pelas enchentes e deslizamentos de terra no Rio de Janeiro, Pezão estava vistoriando a região com sapatos cobertos de lama ao lado da presidente Dilma Rousseff. Ela perguntou ‘Pezão, você não veio de bota?’, ele respondeu que não tinha bota com seu número. Ela disse que na Petrobrás tinha e lhe deu dois pares.
Depois de saber o resultado pela televisão, saí à rua com minha câmara para filmar, com vontade de ir ver o trio elétrico na Lapa, curiosa com os ânimos. Mas estava se instalando uma chuva meio chata, e eu estava cansada das noitadas do fim-de-semana, pelo que fiquei tomando um chop no café da esquina. Tudo o que filmei foi a reação deste grupo do sul, de Florianópolis, de passagem na cidade.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ainda o Roy Wagner

em vésperas de prova, aqui partilho um excerto que de certo modo dialoga com o post anterior, ao continuar a problematizar a noção de natureza e cultura como dialética entre invenção e convenção, o que para os norte-americanos existe em termos diferentes que para os Daribi da Nova Guiné. Roy Wagner estabelece um paralelo entre a magia que serve de motivação à atividade produtora do povo melanésio, com a magia da propaganda na cultura norte-americana, e seus efeitos de enorme relativização que levam a um convencionalismo que ele critica.

e para quem quer uma coisa mais light e agradável aqui um daiquiri de morango, uma canção, pode criar um passatempo com palavras, ou ainda ler uma entrevista ao autor de quando ele passou pelo Brasil em 2011.


A Magia da Propaganda

O que a propaganda nos pede (e eventualmente nos compele) a fazer é viver em um mundo de "magia" tecnológica, onde maravilhas fabricadas pelo homem curam males e fazem da rotina de todos os dias um milagre contínuo. A propaganda nos convida a tornar nossa a magia que há nela. Assim como o agricultor daribi precisa acreditar na efetividade de seus encantamentos para que eles refocalizem com sucesso sua atividade e tragam recompensas reais, o consumidor precisa confiar numa mística da eficácia química e mecânica para que sua própria "magia" alcance seus fins. O foco de poder da vida cotidiana daribi está na força das palavras, no poder da invenção e de um saber arcano; o da vida cotidiana norte-americana, para a maior parte das pessoas, está no uso da tecnologia para resolver seus problemas. Indiscutivelmente, e às vezes de modo bastante inconsciente, atribuímos toda sorte de qualidades "naturais" a substâncias químicas e máquinas, e então as incorporamos em nossas tarefas de modo a fazer uso dessas qualidades. Diz-se que os computadores têm "inteligência": nós os colocamos para trabalhar resolvendo cálculos e arranjando encontros amorosos; tanques de guerra e armas automáticas têm capacidades destrutivas: travamos nossas guerras em grande parte com eles; drogas têm poder sobre a terra prometida da constituição física humana: nós as utilizamos para aumentar as habilidades de uma "mente" supostamente física. Boa parte de nosso pensamento e nossa ação equivale a uma habitual objetificação da capacidade humana - ou da própria "natureza", em termos tecnológicos. Chegamos mesmo a conceber os seres vivos mecanicamente como "sistemas" orgânicos, a criatividade como "solução de problemas" e a própria vida como um "processo". Contudo, uma Cultura "naturalizada" e particularizada e uma natureza organizada e sistematizada fazem parte de um mundo altamente relativizado, cuja distinção crucial entre "o que fazemos" e "o que somos" vem sendo substancialmente erodida e desmantelada pela troca de características. As formas convencionais de nossa Cultura, inclusive a tecnologia, nos diferenciam e separam quase tanto quanto unificam um controle comum da "natureza"; a "natureza" particular e diferenciante que nos cerca (o Meio Ambiente) e infunde (o "sistema" comportamental humano) unifica tanto quanto traça distinções. Em consequência, a objetificação de cada um por meio do outro é altamente tautológica: sistematizamos sistemas e particularizamos particularidades. A frustração engendrada por tal mundo, que não pode nem realizar nem criar seus próprios significados de forma efetiva, rapidamente se resolve numa apatia motivacional quanto à Cultura e à sua percepção tradicional do "eu" e numa profunda reação de antipatia diante de soluções tradicionais, numa necessidade de "fazer algo a respeito" das coisas. Essa é a necessidade que requer e propicia a criação comercial de necessidades em que consiste a propaganda. Para que seja bem-sucedida, a propaganda requer tanto uma apatia em relação à Cultura tradicional, quanto a frustração de "querer fazer algo a respeito".

A propaganda se redime da acusação de ser excessivamente "séria", de manipular as necessidades e os desejos das pessoas, sendo engraçada. Um comercial engraçado é um bom comercial: ele se safa do fato embaraçoso de que é "apenas um comercial" fornecendo entretenimento (outros fornecem "notícias" ou redenção). Sob a máscara do entretenimento, da informação ou da redenção, a propaganda fornece sua pequena contribuição ao trabalho de criar a Cultura criando sua ambiência, sustentando "a economia" ao renovar nossa credibilidade. Junto com as outras facetas da cultura interpretativa, ela nos salva da apatia e do caos da relativização e da ambiguidade à custa de sua própria seriedade - faz da distinção entre o inato e o artificial uma distinção real ao refestelar-se em sua artificialidade.

Assim, nossa ostensiva interação entre Cultura e natureza é, de fato, uma dialética da convenção continuamente reinterpretada pela invenção e da invenção continuamente precipitando a convenção. Mesmo essa renovação, porém, está constantemente perdendo terreno, pois na medida em que os efeitos da interpretação se tornam cada vez mais óbvios, a distinção essencial (Cultura versus natureza) que ela precipita sofre uma relativização cada vez maior. Tornamo-nos cada vez mais dependentes da interpretação e do entusiasmo pela renovação que a inter-relação gera. A Cultura sucumbe ao culto da Cultura porque tem de fazê-lo. E se os ecologistas, com seu instinto certeiro para ir ao fundo da moralidade e da seriedade, falam da coisa toda em termos de "vida" e "sobrevivência", deveríamos considerar uma coisa. Um rio ou um lago poluído (poluição é Cultura do ponto de vista da natureza) fervilha de vida. Trata-se de "sobrevivência" no máximo de sua efervescência: onde umas poucas células ganhavam a vida com dificuldade, agora pululam milhões. Uma "cultura de massa" bacteriológica, de fato, mas uma "vida" que ninguém realmente quer.

segunda natureza

Em entrevista à revista Cult no início deste ano, o filósofo francês Bruno Latour, conhecido pela sua análise do Projeto Moderno do Ocidente, que segundo ele nunca existiu, fala-nos do sentido iconoclasta dos brasileiros, e da importância da mediação para a ciência:   

" O respeito pelos meios, pelas mediações, é algo que os brasileiros sabem fazer muito melhor do que os franceses. Nós, euro-americanos, esvaziamos inteiramente os meios para se buscar a verdade. E aqui novamente a teoria da ciência tem uma participação, pois para respeitar as ciências, temos que respeitar os meios que fazem a ciência. Isso parece de uma banalidade imensa, mas o fato é que isso resta sendo um assunto sobre o qual há ainda muita controvérsia, pois existem ainda pessoas que querem a ciência sem respeitar os meios. Os “modernos” são realmente bizarros! "

para mim ela conversou também com o livro que ando a ler, A Invenção da Cultura, do antropólogo americano Roy Wagner:

"A necessidade da invenção é criada pela dialética e pela interdependência que ela impõe entre os vários contextos da cultura.  Uma vez que “esgotamos” nossos símbolos no processo de usá-los, precisamos forjar novas articulações simbólicas se queremos reter a orientação que possibilita o próprio significado.  Nossa Cultura coletiva cria e sustenta uma imagem e uma percepção da “natureza” e da força natural, enquanto nossa busca compensadora por conhecimento e experiência em domínios não Culturais equivale a uma invenção da Cultura. Viver na Cultura e contar com ela cria a necessidade de conhecimento e experiência da “natureza” (inclusive do impulso e da “natureza humana”); observar e experienciar a natureza torna a Cultura significativa e necessária. A necessidade pode ser mascarada como a necessidade de conter impulsos internos e “forças da natureza” externas ou, inversamente, como uma necessidade de “relaxar”, “afastar-se de tudo”, ou descobrir novos fatos, mas na verdade ela é uma propriedade da dialética por meio da qual o significado é e precisa ser continuamente reinventado.

A tendência da cultura é manter-se a si própria, reinventando-se. Mas tenho observado que os controles convencionais da moderna cultura norte-americana são altamente relativizados – como dispositivos de ordenação e unificação, são eles próprios desordenados e particularizados: nossa ciência e nossa tecnologia são altamente especializadas, nossas funções administrativas são irremediavelmente burocratizadas, nossos símbolos nacionais são indiscutivelmente ambivalentes. A Cultura é ambígua (e a antropologia em grande medida existe por explorar essa ambiguidade). De resto, isso não se deve ao roubo de nossos fluidos vitais pelos comunistas, ao relaxamento da disciplina, aos espoliadores que espoliam O Meio Ambiente, aos Jovens Mal-Agradecidos por Sua Educação, ainda que alguns desses fatores sejam sintomas importantes. Isso decorre diretamente do facto de que nos agarramos à nossa Cultura – às suas orgulhosas tradições, às suas técnicas poderosas, à sua história e à sua literatura, às suas impressionantes fileiras de Grandes Nomes – acima de todas as tentativas de reinventá-la.

Embora nada me vá fazer deixar de amar Mozart, Beethoven e as Sinfonias Londrinas de Haydn, essa insistência na Cultura, e a relativização que ela acarreta, força os americanos a viver numa contínua frustração de soluções que se desfazem em suas próprias mãos e numa contínua tensão de “querer fazer algo a respeito” das coisas. "    


Ora, o que me parece mais interessante na entrevista de Latour, é quando ele fala do papel da natureza econômica na construção do projeto da modernidade:

" Meu argumento é que, entre os chamados “modernos”, não foi sobre natureza no sentido científico que eles realmente se ocuparam. A natureza interessa aos cientistas, e portanto, a muita pouca gente. É a natureza no sentido da economia que teve um papel importante na modernização, no que chamamos de marchandisation, que foi inventada entre 1750 e 1850 (período sobre o qual Foucault escreveu excelentes trabalhos). Esse é o momento da criação da natureza econômica. Os argumentos que usamos para falar da natureza não são os dos biólogos. Os biólogos sempre souberam que a natureza da qual eles falam faz um mundo de coisas, muito além do que faz “a natureza” dos filósofos.  Mas aprendemos a crer piamente que a natureza econômica existia e que ela era constituída por uma infraestrutura, um regime de bens. Gabriel Tarde mostra, em A Psicologia Econômica, como a economia é tratada como uma segunda natureza. O livro é uma crítica dessa postura: da natureza da economia, que é preciso repolitizar em todos os sentidos. Isso é extremamente difícil, pois cremos que há realmente uma natureza econômica e poucos a repolitizam, muito menos os chamados economistas críticos. Eles acham que as leis da economia são leis alternativas. A crença nessa economia é quase universal. Somos menos agnósticos em matéria de economia, mesmo quando somos anti-liberais."

Pessoalmente eu acho esta crítica à natureza econômica uma das coisas mais importantes a serem feitas, sensação que tive a partir da disciplina de Antropologia Económica, na qual estudávamos as relações da economia no tecido social, suas apropriações simbólicas, presentes no livro de Marcel Mauss Ensaio sobre a Dádiva, ou na obra de Marshal Sallins.

Foi importante por isso na época ler Entre a Dádiva e a Mercadoria. Ensaio de Antropologia Económica, do professor Adolfo Yáñez Casal, que situa historicamente o pensamento liberal, e a filosofia capitalista que Max Weber mostra estar associada à religião protestante, etc. Este livro ajuda-nos a perceber uma série de coisas que acho têm a ver com o que Latour fala que se tornou o economicismo, uma segunda natureza da qual talvez nunca tenhamos aprendido a duvidar...
 
E ele fá-lo resgatando a dimensão da dádiva presente nas nossas vidas, quer seja na família, na arte, ou na religião, através da troca simbólica e gratuita, mostrando como ela continua permeando os interesses, de formas originais, muitas vezes negadas e desapercebidas por nós. Podemos entender talvez melhor como o valor que atribuímos às coisas muitas vezes não vêm de uma decisão reflectida, mas sim de uma estrutura de obrigação e dever inculcada em nós... 




anúncio no jornal Ocasião de 2007, de um homem que disponibiliza suas mãos para tentar equilibrar a energia de quem o procura, sem pedir por isso contribuição monetária




anúncio de uma mulher que filmámos em 2007 cantando na prisão de Leiria em Portugal, e que se disponibiliza para ir também na casa das pessoas cantar

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Hoje na hora do almoço estava em cima da mesa este livro de fotografia : Anónimos + Famosos, do fotógrafo Gustavo Malheiros, sobre pessoas comuns que se destacaram no Rio de Janeiro, virando personagens queridas, por animarem as ruas e o quotidiano da cidade. 

Lá consta o incrível Jacaré dos Patins que eu e minha amiga Fernanda vimos uma vez no Leme, o ‘Xuxa do Sinal’, figura conhecida dos motoristas que ficam presos nos engarrafamentos da Barra da Tijuca, que imita a apresentadora Xuxa com peruca loura e muita maquilhagem, Natasha Jascalevich, a ‘Mulher Cobra’ contorcionista que se apresenta na Praça da Bandeira, ou o Sheik do Pepê, um beduíno de lenço árabe, um camelo e uma odalisca sobre a areia. 

Lançado em Março deste ano, na verdade o livro é uma 2ª edição que dá continuidade a um projeto de 2002: "Ainda existiam muitos outros personagens para serem mostrados. É, na realidade, um projeto que nunca acaba”, diz Malheiros. 


Sheik do Pepê / Marco Antonio Maciel
Praia do Pepê, Barra

Um beduíno de lenço árabe, um camelo e uma odalisca sobre a areia. Seria um clichê oriental, mas o beduíno é paulista de Campos do Jordão, descendente de italianos, o camelo é de fibra de vidro e a odalisca é dançarina de samba. Marquinhos tem 60 anos e trabalha na areia, vestido de árabe, há 30. Diz com segurança que é o maior vendedor de praia do Brasil, chegando a vender mil salgados – entre esfirras, quibes e caftas – em três horas no verão.


São fotografadas pessoas como o Índio de Niterói, que se apresenta caracterizado em qualquer lugar ou horário; o vendedor de amendoim que trabalha de terno num viaduto, mesmo naqueles dias em que os termômetros marcam mais de 40 graus, o gari da Comlurb que alegra o desfile de Carnaval no Sambódromo; Dona Suluca, de 75 anos de idade, uma das mais tradicionais baianas da Mangueira; ou Zé das Medalhas, balconista da Pharmácia do Leme que anda com quilos de cordões pendurados no pescoço. Alguns fazem ponto há décadas no mesmo local, como seu Francisco, morador de São João de Meriti, que vende rosas há 39 anos no bares da zona sul; outros representam a história do Centro da cidade, como Seu José, garçom da Confeitaria Colombo.













segunda-feira, 13 de outubro de 2014

continuei lendo o rOY wAGNer, me preparando para a prova de Antropologia Contemporânea.

"A crítica pós-moderna diz respeito a nós mesmos, ou seja, aos antropólogos. Clifford talvez seja o exemplo mais nítido. A suposição de que “somos todos nativos” significa isto: ‘nós', antropólogos, também somos nativos. É uma afirmação que recai sobre o Mesmo. A ideia de Wagner, “somos todos antropólogos”, ao contrário, recai sobre o Outro. Ela quer dizer: ‘eles', os nativos, também são antropólogos. Os pós-modernos proclamavam a condição nativa do antropólogo, embora pareçam claramente estar pensando: somos nativos, tudo bem, mas somos mais alguma coisa. Wagner, ao proclamar a condição antropológica do nativo sugere uma implicação mais interessante: eles são antropólogos, mas não são apenas isso. Ou seja, eles são antropólogos, mas de modos muito diversos do que supõe nossa vã epistemologia." (tirado da resenha de Flávio Gordon)

e provei uma cerveja excelente: DaDoBier, a primeira microcervejaria do Brasil, fundada em 1995 no sul

fiquei também com vontade de conhecer melhor o Jarmuch dos primeiros tempos (quanto a mim o melhor) porque me mandaram este vídeo com uma cena do seu primeiro filme, Permanent Vacation, que ele fez em 16mm logo após sair da escola de cinema.

domingo, 12 de outubro de 2014

Cineasta dos sonhos interrompidos

Cineclube Brasil: Como surgiu o título “Cineasta dos sonhos interrompidos”?
Sílvio Tender: O Arnaldo Carrilho, que hoje é embaixador do Brasil na Coreia do Norte, velho cinéfilo e nosso amigo, quando eu lancei Glauber e depois Milton Santos, me definiu assim. Ele demonstrou que todos os meus personagens, de uma maneira ou outra, por alguma razão, interromperam a obra que estavam fazendo.


Hoje vi o novo documentário Privatizações: a Distopia do Capital de Sílvio Tendler, um diretor que sempre gosto de acompanhar, pela forma como trata as imagens de arquivo e as relaciona com a história do Brasil e do mundo, convidando à reflexão. 

Professor da cadeira de Cinema e História na PUC do Rio, o cineasta carioca é curiosamente detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro.

A primeira vez que ouvi falar dele foi na Jornada Internacional de Cinema da Bahia em 2006, em Salvador, com um filme sobre a obra de Milton Santos e os processos da globalização.  Depois lembro-me de ver seu filme Utopia e Barbárie no Cineclube Savassi em Belo Horizonte, atualmente extinto. Recentemente uma colega me falou também do seu filme anterior sobre o agronegócio, O Veneno Está na Mesa, e finalmente hoje, por via de outro querido colega de Lisboa, acabei assistindo este, sobre as privatizações no Brasil nos anos 90, e a relação do capital financeiro com o Estado.

Acho interessante ver este filme numa altura de debate eleitoral, em que se pensa o rumo do país, e tantas vezes se confunde aquilo que é essencial, com a politiquice (vejam só a quantidade de sinônimos que existem para esta palavra: politicagem politiquês politicalha politicaria politiquismo...)

Aqui a passagem que mais me chamou a atenção, e que me fez lembrar um comentário recente do antropólogo Viveiros de Castro, dizendo que o Brasil "sempre foi dos outros":

"...nos últimos anos os bens naturais, a terra, a água, as florestas, estão sofrendo uma ofensiva do capital internacional, que, para se proteger da crise europeia do hemisfério norte em 2008, correu aqui para o Brasil para se transformar em patrimônio e escapar da crise... então, nos últimos dois, três anos, mais de 200 bilhões de dólares de capital financeiro especulativo veio ao Brasil e se transformou em terra, em usina de etanol, em usina hidroelétrica, inclusive se apropriando da própria atmosfera... pois eles agora fazem esses cálculos de quanto oxigênio cada hectare de floresta tropical emite na atmosfera, transformam em título,  e vendem nas bolsas da Europa como crédito de carbono para as empresas poluidoras… e ganham dinheiro até com a especulação desses títulos, já tem duas empresas que fizeram isso com áreas indígenas do Acre. ...nós brasileiros perdemos a soberania sobre o nosso maior patrimônio, que é a terra, a água... e agora até sobre o nosso ar." 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Lideranças Indígenas

Comecei hoje a editar o encontro de Lideranças Indígenas que ocorreu no passado mês de Julho no Festival de Inverno da UFMG, em Belo Horizonte. 

Protagonizado pelos líderes de onze povos ( Tupinambá, Munduruku, Guarani Mbya, Guarani Kaiowa, Terena, Caiapó, Guajajara, Kaikang, Maxakali, Krenak, Tupi-Guarani ) oriundos de cinco diferentes regiões do Brasil, o encontro durou três dias, tendo resultado num Manifesto das Lideranças. 


Minha intenção é fazer um vídeo* que toque nos principais pontos de debate da luta pela demarcação do território indígena, que tem vindo a agravar-se nos últimos anos, em consequência das perseguições dos fazendeiros aos índios, com a conivência da Polícia Militar. A questão da terra e do direito sobre ela é, claro, tão antiga quanto a nossa sede, e tem ganho contornos curiosos e paradoxais com as políticas desenvolvimentistas do Governo PT, que fazem a FUNAI (orgão oficial do Estado criado em 1967 para salvaguardar os interesses dos povos indígenas) depender do poder Executivo, Legislativo e Judiciário.


 


Para quem deseja saber mais sobre esta questão, pode encontrar no ISA

e pode ler a Carta dos Aty Guasu Kaiowá e Guarani ao Governo Federal e ao Judiciário, e o interessante debate sobre o fenômeno de solidariedade que ela provocou nas redes sociais e na sociedade brasileira, analisado aqui por várias personalidades, a convite da jornalista Eliane Brum

ou o Relatório de Violência contra os Povos Indígenas do Brasil 2013, lançado há mais de 20 anos pelo Conselho Indigenista Missionário, que condensa números, episódios e análises sobre as violências sofridas pelos povos indígenas brasileiros durante o ano.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

A Invenção da Cultura

Em Teorias Antropológicas Contemporâneas, andamos a debater o livro de Roy Wagner, A Invenção da Cultura, escrito em 1975, mas só publicado em português 35 anos depois, numa bela edição da Cosac Naify. 

O livro radicaliza uma reflexão sobre o polêmico conceito de cultura em Antropologia – a partir da consideração dos modos de conceitualização nativos, ela reformula a própria disciplina antropológica, fazendo-a pensar sobre si mesma.  Para Wagner, não se trata de entender o que outros povos produzem como “cultura” a partir de um dado universal (a “natureza”), mas antes, o que é concebido como dado, e portanto como cultura, por outras populações. 

Sua primeira edição é quase simultânea de dois outros livros de antropólogos norte-americanos que marcaram a antropologia contemporânea: A Interpretação das Culturas, de Clifford Geertz, e Cultura e Razão Prática, de Marshall Sahlins - publicados, respectivamente, em 1973 e 1976. O destino desses três livros, contudo, continua sendo muito diferente. Afinal, os dois últimos conheceram uma difusão e um sucesso que o primeiro mal começa a experimentar e que dificilmente terá em grau comparável.








Na crítica que Márcio Goldman (UFRJ-Museu Nacional) escreveu ao livro, em 2011, O Fim da Antropologia, ele compara as três abordagens da cultura e enfatiza a originalidade de Wagner: 

" A "mensagem" desses livros parece tão adaptada ao momento em que foram escritos que é difícil concebê-los em outro contexto qualquer. Afinal, nos dois casos se tratava, em breves palavras, de salvar o culturalismo daquilo que sempre foi o que poderíamos chamar seu melhor inimigo, a saber, o reducionismo naturalista. Ou seja, aquilo sem o que a antropologia cultural simplesmente não pode funcionar, na medida em que lhe faltaria esse seu "outro", aquele que define, equivocadamente sem dúvida, o que a cultura elabora, interpreta, simboliza ou transcende - a natureza.

Observemos também, ainda que de passagem, que esse naturalismo se apresentava, tanto a Geertz como a Sahlins, sob uma dupla forma. De um lado, as antropologias ditas ecológicas ou materialistas, que ambos simplesmente recusam; de outro, uma versão muito mais complicada, sofisticada e, talvez, inesperada, o estruturalismo levistraussiano. Afinal, apenas dois anos antes da publicação do livro de Geertz, Lévi-Strauss havia concluído sua mitológica tetralogia - em que a demonstração da incrível sofisticação de que era capaz o pensamento indígena parecia anular qualquer possibilidade de redução - com um livro significativamente intitulado O Homem Nu, que conclui com a peremptória afirmativa de que, no final das contas, tudo não passa do produto da atividade do cérebro humano, ele mesmo produto de um complexo processo de evolução natural: higher naturalism, como definiu Sahlins; hypermodern intellectualism, nas palavras de Geertz. Mas, se Geertz parece simplesmente recusar a alternativa levistraussiana buscando refúgio numa hermenêutica que invariavelmente funciona como saída sofisticada para os que não gostam da noção de estrutura, a reação de Sahlins é diferente. Oriundo, ele próprio, de uma tradição antropológica materialista e neoevolucionista, um estágio em Paris o fez imaginar a possibilidade de, por assim dizer, embutir o estruturalismo no culturalismo, fazendo das "estruturas da mente" os "instrumentos da cultura", não sua "condição", e da própria estrutura apenas uma parte da cultura e da história.

O livro de Wagner segue um caminho bem diferente, seja em relação ao interpretativismo geertziano, seja em face do culturalismo estruturalizado de Sahlins. Tão diferente que podemos ter hoje a sensação de que não são apenas um ou dois anos para mais ou para menos que separam A Invenção da Cultura desses dois outros livros, mas algo como meio século! De fato, se A Interpretação das Culturas e Cultura e Razão Prática soam hoje como anúncio do fim (no duplo sentido de acabamento e de término) de uma Antropologia fin de siècle (século XX), A Invenção da Cultura parece anunciar o início de outra coisa, que poderíamos imaginar como uma das possibilidades abertas para a Antropologia do século XXI. "
 
Apesar de só agora me adentrar mais na realidade deste debate, sigo entusiasmada pela ideia de Wagner, de que "é preciso ultrapassar as fronteiras das próprias convenções e investir a imaginação no mundo da experiência", e pela ideia de que esse investimento ocorre sobretudo no trabalho de campo, uma vez que a experiência etnográfica impõe resistência às categorias analíticas do antropólogo. 

Ele vai se tornando o ponto articular entre duas culturas e, à medida que ambas vão sendo objetificadas (ganhando contornos), a invenção de uma é concomitante à reinvenção de outra.

domingo, 5 de outubro de 2014

Não vote, lute

BRASIL   
o Brasil é um país novo que se imagina velho, e um país velho que se supõe novo. 

No livro O Avesso das Coisas, conjunto de máximas com aparência de mínimas, o poeta Carlos Drummond de Andrade tira do cotidiano não apenas o lírico mas também o curioso, o imprevisível, o insólito. O livro reúne aforismos engenhosos que revelam seu modo pessoal de ver as coisas. 

Já o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, comentando as eleições de hoje, apelou num post na internet "Não seja mais um votário. Só conta o que nós mesmos fazemos", acrescentando que "O voto nulo é agora um dever cívico incontornável. Declaro de antemão meu voto neste segundo turno: não vote, lute."

Hoje foi dia de eleições no Brasil.

Dilma venceu em 15 estados, Aécio em 9, Marina em 2.

Eleito governador em Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel destronou o PSDB há 12 anos no poder, o ex-jogador de futebol Romário foi eleito Senador pelo Rio de Janeiro, com uma votação surpreendente, e no Estado de São Paulo, Celso Russomanno foi o deputado mais votado do País, seguido do famoso humorista Tiririca, que prioriza projetos para palhaços, e do pastor Marcos Feliciano, conhecido pelas suas polêmicas frente à Comissão de Direitos Humanos e Minorias, que presidiu no ano passado.

No Fórum Social Mundial, que aconteceu no Brasil em Porto Alegre, em 2005, numa palestra a propósito de Dom Quixote, utopia e política, José Saramago dizia: 
"...a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada. O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? "


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Continuo pesquisando sobre o estudo das emoções ao longo da História, em particular sobre a forma como foram objetivadas pelas Ciências Naturais, e sua crítica no seio da Antropologia Social.

Aqui partilho alguns materiais da minha pesquisa.

A fisionomia, de Physiognomia (fisio = natureza) e ( gnomos = carácter) avalia o caráter humano através do estudo de características físicas, buscando nelas compreender, apreender e reproduzir as sensibilidades, decifrando desejos e paixões, revelando defeitos e qualidades, forças e fraquezas. 

Já em 500 A.C. “Pitágoras aceitava ou rejeitava os seus futuros estudantes baseado no quão talentosos eles aparentavam ser. Aristóteles escreveu que pessoas com cabeças grandes eram malvadas, aquelas que tinham faces pequenas eram firmes, caras largas refletiam estupidez, e faces redondas assinalavam coragem", diz Sarah Waldorf no artigo Fisionomia, a Bela Pseudociência , de 2012.

Em 1806 um raro e surpreendente álbum de gravuras foi publicado pela primeira vez reproduzindo a série de fisionomias de Charles Le Brun, primeiro pintor real sob Luís XIV, que século e meio antes realizou um conjunto de desenhos que comparavam o rosto de seres humanos com os rostos de animais. Ele acreditava que se a face humana se assemelhasse com a face de um determinado animal, esse indivíduo teria os aspectos do caráter desse animal.

Um “alfabeto de máscaras”, prefiguração do que se tornaria posteriormente o “método dos julgamentos” nas pesquisas promovidas notadamente por Ekman, as quais associam uma “expressão facial” a cada emoção particular. Essa foi a originalidade do pintor, que de resto, retomou as seis paixões primárias de Descartes (admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza); contentando-se entretanto com dezassete paixões compostas (receio, terror, bravura, cólera, etc.) 
 


                           

"Ao contrário de Descartes, entretanto, ele ignorou a vontade individual e estabeleceu um vínculo apriorístico entre a emoção e sua expressão facial." (Le Bréton, As Paixões Ordinárias, p.183)



 

 

 

Para Ekman, Sorensen e Friesen tratava-se igualmente de apreender emoções “puras”, ou seja, inequívocas, sem ambivalências e sem mistura, caso contrário o dispositivo jamais funcionaria. Dentre um total de 3.000 fotografias de expressões faciais, excluindo-se o resto do corpo, apenas trinta preencheram as condições de uma pose sem nuances. Essas últimas foram então apresentadas a estudantes americanos, japoneses, brasileiros, chilenos e argentinos. 

 
Seis emoções foram escolhidas: alegria, tristeza, cólera, medo, surpresa, e decepção. Os resultados oscilaram entre 63% de reconhecimento da cólera pelos estudantes japoneses a 97% de reconhecimento da alegria pelos estudantes americanos. O próprio Ekman apontou a modéstia do índice de reconhecimento pelos japoneses, atribuindo-a ao fato de que as “mascaram com sorrisos corteses”. Todo o problema estava aí, devia-se tomar em conta a realidade na expressão da emoção ou o postulado segundo o qual as expressões devem ser universais?
 

 
Izard, ao testar sob o mesmo príncipio oito emoções com indivíduos de uma dezena de países, obteve resultados parecidos: os gregos, por exemplo, identificaram a excitação a 66%; a alegria a 93%; a surpresa a 80%; a angústia a 54%; a decepção a 87%, etc. Os americanos, os brasileiros e os japoneses concordaram a 60%. Os habitantes da Nova Guiné confundiram a surpresa e o medo a 45%. A surpresa foi reconhecida apenas por um entre dois indivíduos.

Os índices são bons para a tristeza, a alegria, a cólera, e a decepção; a confusão, porém, reina entre o medo e a surpresa, "o que já é suficiente para abalar a tese da universalidade." (Le Bréton, As Paixões Ordinárias, p.198)