Em
entrevista à revista Cult no início deste ano, o filósofo francês Bruno Latour, conhecido pela sua análise do Projeto Moderno do Ocidente, que segundo ele nunca existiu, fala-nos do sentido iconoclasta dos brasileiros, e da importância da mediação para a ciência:
" O respeito pelos meios, pelas mediações, é algo que os brasileiros sabem fazer muito melhor do que os franceses. Nós, euro-americanos, esvaziamos inteiramente os meios para se buscar a verdade. E aqui novamente a teoria da ciência tem uma participação, pois para respeitar as ciências, temos que respeitar os meios que fazem a ciência. Isso parece de uma banalidade imensa, mas o fato é que isso resta sendo um assunto sobre o qual há ainda muita controvérsia, pois existem ainda pessoas que querem a ciência sem respeitar os meios. Os “modernos” são realmente bizarros! "
para mim ela
conversou também com o livro que ando a ler,
A Invenção da Cultura, do antropólogo americano Roy Wagner:
"A necessidade da invenção é criada pela dialética e pela
interdependência que ela impõe entre os vários contextos da cultura. Uma vez que “esgotamos” nossos símbolos no
processo de usá-los, precisamos forjar novas articulações simbólicas se
queremos reter a orientação que possibilita o próprio significado. Nossa Cultura coletiva cria e sustenta uma
imagem e uma percepção da “natureza” e da força natural, enquanto nossa busca
compensadora por conhecimento e experiência em domínios não Culturais equivale
a uma invenção da Cultura. Viver na Cultura e contar com ela cria a necessidade
de conhecimento e experiência da “natureza” (inclusive do impulso e da
“natureza humana”); observar e experienciar a natureza torna a Cultura
significativa e necessária. A necessidade pode ser mascarada como a necessidade
de conter impulsos internos e “forças da natureza” externas ou, inversamente,
como uma necessidade de “relaxar”, “afastar-se de tudo”, ou descobrir novos fatos,
mas na verdade ela é uma propriedade da dialética por meio da qual o
significado é e precisa ser continuamente
reinventado.
A tendência da cultura é manter-se a si própria, reinventando-se. Mas
tenho observado que os controles convencionais da moderna cultura
norte-americana são altamente relativizados – como dispositivos de ordenação e
unificação, são eles próprios desordenados e particularizados: nossa ciência e
nossa tecnologia são altamente especializadas, nossas funções administrativas
são irremediavelmente burocratizadas, nossos símbolos nacionais são
indiscutivelmente ambivalentes. A Cultura é ambígua (e a antropologia em grande
medida existe por explorar essa ambiguidade). De resto, isso não se deve ao
roubo de nossos fluidos vitais pelos comunistas, ao relaxamento da disciplina,
aos espoliadores que espoliam O Meio Ambiente, aos Jovens Mal-Agradecidos por
Sua Educação, ainda que alguns desses fatores sejam sintomas importantes. Isso
decorre diretamente do facto de que nos agarramos à nossa Cultura – às suas
orgulhosas tradições, às suas técnicas poderosas, à sua história e à sua
literatura, às suas impressionantes fileiras de Grandes Nomes – acima de todas
as tentativas de reinventá-la.
Embora nada me vá fazer deixar de amar Mozart, Beethoven e as
Sinfonias Londrinas de Haydn, essa insistência na Cultura, e a relativização
que ela acarreta, força os americanos a viver numa contínua frustração de
soluções que se desfazem em suas próprias mãos e numa contínua tensão de
“querer fazer algo a respeito” das coisas. "
Ora, o que me parece mais interessante na entrevista de Latour, é quando ele fala do papel da natureza econômica na construção do projeto da modernidade:
" Meu argumento é que, entre os chamados “modernos”, não foi sobre natureza no sentido científico que eles realmente se ocuparam. A natureza interessa aos cientistas, e portanto, a muita pouca gente. É a natureza no sentido da economia que teve um papel importante na modernização, no que chamamos de
marchandisation, que foi inventada entre 1750 e 1850 (período sobre o qual Foucault escreveu excelentes trabalhos). Esse é o momento da criação da natureza econômica. Os argumentos que usamos para falar da natureza não são os dos biólogos. Os biólogos sempre souberam que a natureza da qual eles falam faz um mundo de coisas, muito além do que faz “a natureza” dos filósofos. Mas aprendemos a crer piamente que a natureza econômica existia e que ela era constituída por uma infraestrutura, um regime de bens. Gabriel Tarde mostra, em
A Psicologia Econômica, como a economia é tratada como uma segunda natureza. O livro é uma crítica dessa postura: da natureza da economia, que é preciso repolitizar em todos os sentidos. Isso é extremamente difícil, pois cremos que há realmente uma natureza econômica e poucos a repolitizam, muito menos os chamados economistas críticos. Eles acham que as leis da economia são leis alternativas. A crença nessa economia é quase universal. Somos menos agnósticos em matéria de economia, mesmo quando somos anti-liberais."
Pessoalmente eu acho esta crítica à natureza econômica uma das coisas mais importantes a serem feitas, sensação que tive a partir da disciplina de Antropologia Económica, na qual estudávamos as relações da economia no tecido social, suas apropriações simbólicas, presentes no livro de Marcel Mauss Ensaio sobre a Dádiva, ou na obra de Marshal Sallins.
Foi importante por isso na época ler
Entre a Dádiva e a Mercadoria. Ensaio de Antropologia Económica, do professor Adolfo Yáñez Casal, que situa historicamente o pensamento liberal, e a filosofia capitalista que Max Weber mostra estar associada à religião protestante, etc. Este livro ajuda-nos a perceber uma série de coisas que acho têm a ver com o que Latour fala que se tornou o economicismo, uma segunda natureza da qual talvez nunca tenhamos aprendido a duvidar...
E ele fá-lo resgatando a dimensão da dádiva presente nas nossas vidas, quer seja na família, na arte, ou na
religião, através da troca simbólica e gratuita, mostrando como ela continua permeando os interesses, de formas originais, muitas vezes negadas e desapercebidas por nós. Podemos entender talvez melhor como o valor que atribuímos às coisas muitas vezes não vêm de uma decisão reflectida, mas sim de uma estrutura de obrigação e dever inculcada em nós...

anúncio no jornal Ocasião de 2007, de um homem que disponibiliza suas mãos para
tentar equilibrar a energia de quem o procura, sem pedir por isso contribuição monetária
anúncio de uma mulher que filmámos em 2007 cantando na prisão de Leiria em Portugal, e que se disponibiliza para ir também na casa das pessoas cantar