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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Continuo pesquisando sobre o estudo das emoções ao longo da História, em particular sobre a forma como foram objetivadas pelas Ciências Naturais, e sua crítica no seio da Antropologia Social.

Aqui partilho alguns materiais da minha pesquisa.

A fisionomia, de Physiognomia (fisio = natureza) e ( gnomos = carácter) avalia o caráter humano através do estudo de características físicas, buscando nelas compreender, apreender e reproduzir as sensibilidades, decifrando desejos e paixões, revelando defeitos e qualidades, forças e fraquezas. 

Já em 500 A.C. “Pitágoras aceitava ou rejeitava os seus futuros estudantes baseado no quão talentosos eles aparentavam ser. Aristóteles escreveu que pessoas com cabeças grandes eram malvadas, aquelas que tinham faces pequenas eram firmes, caras largas refletiam estupidez, e faces redondas assinalavam coragem", diz Sarah Waldorf no artigo Fisionomia, a Bela Pseudociência , de 2012.

Em 1806 um raro e surpreendente álbum de gravuras foi publicado pela primeira vez reproduzindo a série de fisionomias de Charles Le Brun, primeiro pintor real sob Luís XIV, que século e meio antes realizou um conjunto de desenhos que comparavam o rosto de seres humanos com os rostos de animais. Ele acreditava que se a face humana se assemelhasse com a face de um determinado animal, esse indivíduo teria os aspectos do caráter desse animal.

Um “alfabeto de máscaras”, prefiguração do que se tornaria posteriormente o “método dos julgamentos” nas pesquisas promovidas notadamente por Ekman, as quais associam uma “expressão facial” a cada emoção particular. Essa foi a originalidade do pintor, que de resto, retomou as seis paixões primárias de Descartes (admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza); contentando-se entretanto com dezassete paixões compostas (receio, terror, bravura, cólera, etc.) 
 


                           

"Ao contrário de Descartes, entretanto, ele ignorou a vontade individual e estabeleceu um vínculo apriorístico entre a emoção e sua expressão facial." (Le Bréton, As Paixões Ordinárias, p.183)



 

 

 

Para Ekman, Sorensen e Friesen tratava-se igualmente de apreender emoções “puras”, ou seja, inequívocas, sem ambivalências e sem mistura, caso contrário o dispositivo jamais funcionaria. Dentre um total de 3.000 fotografias de expressões faciais, excluindo-se o resto do corpo, apenas trinta preencheram as condições de uma pose sem nuances. Essas últimas foram então apresentadas a estudantes americanos, japoneses, brasileiros, chilenos e argentinos. 

 
Seis emoções foram escolhidas: alegria, tristeza, cólera, medo, surpresa, e decepção. Os resultados oscilaram entre 63% de reconhecimento da cólera pelos estudantes japoneses a 97% de reconhecimento da alegria pelos estudantes americanos. O próprio Ekman apontou a modéstia do índice de reconhecimento pelos japoneses, atribuindo-a ao fato de que as “mascaram com sorrisos corteses”. Todo o problema estava aí, devia-se tomar em conta a realidade na expressão da emoção ou o postulado segundo o qual as expressões devem ser universais?
 

 
Izard, ao testar sob o mesmo príncipio oito emoções com indivíduos de uma dezena de países, obteve resultados parecidos: os gregos, por exemplo, identificaram a excitação a 66%; a alegria a 93%; a surpresa a 80%; a angústia a 54%; a decepção a 87%, etc. Os americanos, os brasileiros e os japoneses concordaram a 60%. Os habitantes da Nova Guiné confundiram a surpresa e o medo a 45%. A surpresa foi reconhecida apenas por um entre dois indivíduos.

Os índices são bons para a tristeza, a alegria, a cólera, e a decepção; a confusão, porém, reina entre o medo e a surpresa, "o que já é suficiente para abalar a tese da universalidade." (Le Bréton, As Paixões Ordinárias, p.198)

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