Língua

domingo, 29 de novembro de 2015

Eduardo Viveiros de Castro, fotógrafo

  

Estive em São Paulo a visitar a exposição de fotografia do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, e adorei o seu trabalho. Aqui deixo um recorte da minha visita.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Canção de boas-vindas *

Eis sua família, sua mãe, seus pais, seus avós.
Bem-vindo a esse sangue, esses ossos.
Por que você perdeu a voz?

Eis sua comida, eis sua bebida, eis o jantar.
E uns pensamentos, se quiser pensar.
Bem-vindo ao lar.

Eis sua estrada da vida quase virgem,
Bem-vindo a ela, a essa miragem.
Mesmo assim, boa viagem.

Eis seu aluguel, eis seu pagamento.
O dinheiro é o quinto elemento.
Bem-vindo ao investimento.

Eis sua colmeia, o enxame, multidões.
Bem-vindo a tantas populações:
Você é um em cinco bilhões.

Bem-vindo à lista telefônica onde reluz seu nome.
Numa democracia, um dígito é um homem.
Bem-vindo à busca de renome.

Eis seu casamento, e eis um divórcio todo seu.
E agora os erros irreversíveis que cometeu.
Bem-vindo, você se fodeu.

Eis você com a lâmina junto à jugular.
Bem-vindo, autoterrorista singular,
Ao seu Oriente Médio particular.

Eis seu espelho, eis sua pasta de dentes.
Eis o polvo no seu sonho recorrente.
É seu esse grito de demente?

Eis o sofá, a TV, o debate sobre a crise.
Eis seu candidato falando cretinice.
Bem-vindo ao que ele disse.

Eis sua varanda, o carro que passa apressado.
Eis seu cachorro cagando na sala, folgado.
Bem-vindo ao seu olhar culpado.

Eis as cigarras e eis um pássaro piando à tarde.
A lágrima que pinga no seu chá pela metade.
Bem-vindo à eternidade.

Eis sua radiografia com uma mancha no pulmão.
Bem-vindos os comprimidos para o coração.
Bem-vindo seja você à oração.

Eis sua tumba, o cemitério que se estende além.
Bem-vindas as vozes que dizem “Amém”.
É o fim para você também.

Eis seu testamento, mas ninguém o lê.
Eis sua missa, mas rezar quem há de?
Eis a vida sem você.

E eis as estrelas que não estão nem aí
Para você ter ou não estado aqui.
Meu velho, é isso aí.

Eis que não sobrou nada do seu passo.
Da sua face não ficou traço.
Bem-vindo ao espaço.




* Poema dito por Carlito Azevedo no evento Cosmologias 
 

sábado, 10 de outubro de 2015

Rabeca


Ontem tive uma aula maravilhosa no Museu Nacional sobre a rabeca, dada pelo professor Daniel Bitter, que aqui interpreta uma música tradicional da folia de reis de Minas Gerais.


domingo, 16 de agosto de 2015

Há festa na aldeia!

Aqui um recorte da festa da aldeia da minha mãe, o Ceiroquinho, que fica na Beira Interior (centro de Portugal), no dia 15 de Agosto de 2015.


sábado, 8 de agosto de 2015

É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós

Me sinto muito feliz por estar novamente em Lisboa.

Um dos lugares que gostei de conhecer agora foi a Cova do Vapor, vila de pescadores onde o rio encontra o mar, onde comemos um peixe delicioso com vinho branco, e eu dei o meu primeiro mergulho deste lado.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

perder os sapatos

Quando vinha para Lisboa no avião, veio-me à ideia as vezes em que perdi os sapatos no Brasil. Contei três vezes já, as vezes em que cheguei descalça a casa, ou atravessei descalça a cidade para parar numa drogaria ou num quiosque a fim de comprar umas havaianas que remediassem a situação. A primeira foi no Reveillon, quando depois de uma noite em que saí do mar já de manhã, não sabia onde estavam minhas roupas, meus amigos, nem tão pouco minhas sandálias, no meio da multidão dispersa da praia de Copacabana. Os amigos e o vestido eu encontrei, mas as sandálias não, e acabei trazendo umas havaianas perdidas também da areia. A segunda vez foi no Carnaval em Belo Horizonte, no bloco Filhos de Tcha-Tcha, que aconteceu numa ocupação a uma hora e tal da cidade, depois de chover muito e tudo se transformar num lamaçal gostoso em que os corpos e a música se fundiram noite dentro. A terceira foi na prainha em Piratininga, na costa de Niterói, há umas semanas atrás, com minha amiga Daniela. Ela falou que eu era a segunda pessoa que perdia sapatos com ela na praia. 

Quando estava no ar, imaginava como seria atravessar descalça as ruas de Lisboa, se de repente por qualquer motivo eu perdesse os meus sapatos.

No Rio de Janeiro isso me parece a coisa mais normal do mundo, como tantas coisas que combinam com a naturalidade desse improviso que tento explicar aqui, em mesas de bar. Umbanda, antropofagia, frituras, greves, meninos do surf, havaianas.

Minha amiga Daniela, antropóloga a fazer pesquisa na cidade, analisa e documenta os objetos que os portugueses levam na mala entre os dois países, e faz isso através do desenho, com seu olhar atento, cuidadoso. Enquanto eu estou de férias em Lisboa, ela está a desenhar o meu apartamento na Lapa, e acaba de me enviar alguns esboços.


 



sábado, 18 de julho de 2015

à beira do milagre

Outro dia fui no lançamento do livro Vai Brasil da Alexandra Lucas Coelho, e pude finalmente conhecê-la!... Achei-a talvez mais magra do que imaginei. Gostei da sua atenção cuidadosa, que se desdobrou em muitas caras e vozes ao longo da noite sem nunca perder a curiosidade, e gostei da dedicatória que me fez no romance que acabei por comprar, "A noite roda." Acabámos a noite falando de ayuaska, porque a minha amiga Daniela tinha feito o ritual com o mesmo "guia" que ela, e dos árabes no Brasil, que parece que são menos em número afinal do que se diz. Gostei de saber que ela esteve em São Gonçalo do Rio das Pedras, lugarejo no interior de Minas onde estive hospedada em 2008, e do qual guardo uma memória muito especial. Além do frango caipira da senhora da casa onde fiquei, da estrada de terra, foi lá que eu achei a cachaça Chora Rita, que deixou de ser fabricada nesse mesmo ano, e que inspirou meu website.

nessa entrevista recente de Alexandra, gostei da forma como ela fala do Rio de Janeiro:
Sobre essa alegria que virou clichê, quem mora no Rio sabe que ela vem do fundo da tristeza. Da opressão da violência. Sendo uma alegria que vem tão de baixo, é quase como se o Rio fosse uma cidade extra-humana. Eu vejo o Rio como um milagre humano. A cidade é uma prova de como continuar a ser humano.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

RAP

hoje quando ia para a minha aula habitual de Pilates, encontrei este grupinho improvisando aqui na rua, e não resisti a filmar um pouco. Quando voltei da aula, continuavam lá, e então conversámos, e eles me falaram que ensaiam aqui todas as 4as, depois das aulas...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Ordem do Discurso

É curioso reparar que na Europa, durante séculos, a palavra do louco, ou não era ouvida, ou então, se o era, era ouvida como uma palavra verdadeira. Ou caía no nada — rejeitada de imediato logo que proferida; ou adivinhava-se nela uma razão crédula ou sutil, uma razão mais razoável do que a razão das pessoas razoáveis. De qualquer modo, excluída ou secretamente investida pela razão, em sentido estrito, ela não existia. Era por intermédio das suas palavras que se reconhecia a loucura do louco; essas palavras eram o lugar onde se exercia a partilha; mas nunca eram retidas ou escutadas. Nunca a um médico ocorrera, antes do final do século XVIII, saber o que era dito (como era dito, por que é que era dito isso que era dito) nessa palavra que, não obstante, marcava a diferença. Todo esse imenso discurso do louco recaía no ruído; e se se lhe dava a palavra era de modo simbólico, no teatro, onde se apresentava desarmado e reconciliado, já que aí representava a verdade mascarada. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Portugal

Ontem na praia do Leme, passou este senhor com esta caixinha, com o picante/ tempero para colocar no queijo coalho que vendia.





sábado, 30 de maio de 2015

Diário de Campo

criei um diário de campo virtual para dar conta da minha pesquisa final da Graduação em Antropologia, que irá até ao próximo ano de 2016: Minha Vizinha


domingo, 10 de maio de 2015

Imagens do Inconsciente

"Imagens do Inconsciente" aborda três histórias de vida, três casos clínicos. Procurei uma linguagem cinematográfica que permitisse narrar os filmes a partir dos próprios trabalhos pintados pelos artistas. Em um processo seletivo, as obras - que expressam o mundo interior do artista - vão revelando as idas e voltas da consciência e a sua despotencialização.
Quando a pessoa se despotencializa põe para fora, na pintura, os fantasmas que estavam dentro dela. Despotencializadas, permitem que as forças autocurativas se manifestem. 
Leon Hirszman

Hotel da Loucura

Sexta passada fui com a minha turma de Antropologia da Arte a Engenho de Dentro, visitar o hospital psiquiátrico D. Pedro II, que hoje recebe o nome de Instituto Nise da Silveira, em homenagem à psiquiatra alagoana. Primeiro fomos no Museu de Imagens do Inconsciente, criado por ela em 1952, e em seguida no Hotel da Loucura, ocupação que acontece lá desde 2012.

Eu tinha ido uma vez em 2008 visitar o Museu e os ateliers da terapia ocupacional, e fiquei com vontade de voltar pra filmar, tendo inclusive falado com o pessoal de lá nesse sentido, já que tenho um filme em working progress sobre saúde mental desde 2007, quando comecei a filmar alguns pacientes do centro de saúde mental de Alcântara, que é o bairro onde cresci em Lisboa. 

O tema da loucura e das relações que ela provoca interessa-me desde então, pois convivi de perto com esquizofrénicos e terapeutas, não só em Portugal como no Brasil, quando visitei a Estação dos Sonhos, outro centro de saúde diurno localizado em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte.

Sexta feira muitas recordações me vieram à mente, de minhas tardes no jardim do Alto de Sto Amaro com a Teresa, que tinha namorado o filho do ex-presidente da República e que costumava cantar nos salões da alta sociedade, e que agora chorava vendo passarinho, da entrevista que fiz com uma paciente passando roupa a ferro na sua sala falando da arbitrariedade na prescrição dos remédios, dos seus efeitos colaterais. Lembrei-me do olhar do Rui na sua casa escura, com os estores quebrados, me mostrando suas construções em lego, e sua série de fotografias sobre os elétricos da Carris. Lembro-me que ele decorava a trajetória dos ônibus, sabia o nome de cada ponto. E lembrei-me do jeito engraçado de fumar da mulher à frente do grupo de teatro da Estação dos Sonhos, e de seu humor contagiante, quando se mascarou no baile dos anos 60 e dançou o Michael Jackson.

Uma média de 400 internos existe hoje no hospital de Engenho de Dentro. Muitos deles vivem nas enfermarias dos andares onde acontece a ocupação, que pretende cruzar artistas, pesquisadores, e trabalhadores da saúde, numa perspectiva de encontro através do afeto e da inclusão.

Aqui podemos ver alguns dos movimentos que têm vindo a esboçar-se no Hotel, que é a sede da Universidade Popular de Arte e Ciência

E aqui algumas fotos da minha visita







sexta-feira, 24 de abril de 2015

que pena

"ele já não gosta mais de mim" canta a Gal e o Caetano, nu, ao fundo, numa fotografia
cartão-postal de uma outra cidade onde os barcos se afundam
bem no meio do mar
mar de fim de maio ou
"então não"

pois ela era uma rosa
e as outras eram manjericão

e eu era eu, submissa e omissa, simpática e antipática
sem saber que esconder, afinal vim da guerra, de uma outra cidade
onde não molhei sequer os pés.

a poesia afunda-se
com o seu redemoinho de gestos
a vida toda, garantidos.

e que pena

que coisa

que vontade de beijar, e ser uma cena de filme
ou então não, 
o mato
propriamente dito
das vontades.