Língua

sábado, 29 de novembro de 2014

o poema não pode quebrar a fidelidade à palavra dada, nem a
nova fé que pretende instaurar poderia________e nasce
um poema estranho de renúncia e traição____________,

um mundo por vir contido numa semente semântica de mostarda

LLANSOL

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Eduardo Berliner

Gostei de conhecer este pintor carioca, nascido em 1978, que teve sua primeira individual ano passado aqui no CCBB.

Diariamente, por volta de dez da manhã, Eduardo Berliner deixa a casa onde mora, no Humaitá, e caminha rumo ao ateliê, um pequeno sobrado em Botafogo, onde fica até seis ou sete da noite. Quando não segue esse roteiro básico, o artista diz sentir o mundo “acolchoado”:
— Quando pinto, crio atritos.
Sua pintura é formada em parte pelo que vê — muitas vezes nas caminhadas até o ateliê — em parte pelo que imagina.
— Tem dias em que só olho o mundo. Não tenho um assunto. Posso pintar uma cebola (aponta uma pequena tela no chão do ateliê) ou um limão (mostra uma aquarela na parede do sobrado). Quando estou desenhando, nem sempre vejo de onde vem (o trabalho). Às vezes, os desenhos e pinturas me ajudam a lidar com minhas inquietações e ansiedades e, portanto, é natural que não sejam amenas. Lido com o que nem sei o nome.








segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ocasião

hoje tava procurando no meu HD uma filmagem recente que fiz de um pessoal dançando na minha faculdade ao fim do dia, quando saía das aulas... estava uma luz linda, e as pessoas dançavam em par um forró delicioso por entre os pilares, com as árvores ao fundo... mas percebi que o perdi, que devo ter deletado os ficheiros do cartão quando precisei dele novamente para gravar áudio numa entrevista. em vez disso, encontrei uma filmagem minha e da Cláudia na pesquisa do filme A Ocasião, que fizemos em 2005, sobre o mundo do colecionismo... com esta professora de matemática que coleciona as surpresas dos ovos kinder, além de outros quebra cabeças. Analisando a pulsão do colecionador, ela diz que "Aquilo que uma pessoa deita para o lixo, tem outra que quer".

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Guarassuy

ontem tive mais uma entrevista com Guarassuy, minha vizinha indígena, com quem realizei um vídeo para o projeto Museu Encantador apresentado aqui no MAM o mês passado. Decidi desenvolver o projeto final de curso com ela, querendo explorar a relação entre sua identidade indígena e o poder do Estado. Minha ideia é tentar perceber até que ponto ela chama a si a origem do mito nacional ( já que foi trazida pelo trio de antropólogos mais famoso do Brasil, os irmãos Villas-Boas, fala que foi criada pelo ex-presidente do Brasil Jucelino Kubitschek em Diamantina, a quem chama de "segundo pai", e mais tarde se tornou inspetora da polícia (tendo inclusive uma vez morto a tiro dois homens e um cachorro)... quero perceber até que ponto suas histórias (inventadas ou não) podem ajudar a desconstruir a ideia de "identidade", e levar a pensar a atual luta pela demarcação das terras indígenas (que é sua principal preocupação e causa de sofrimento) em relação às demandas do projeto moderno (que, segundo as críticas de várias lideranças indígenas, é corroborado pelo governo de Dilma).

Ontem conheci finalmente o seu filho Carlos António (que falou que se sente aliviado por não ter recebido um nome indígena, tal como a mãe queria mas o pai não deixou...), e descobri várias coisas interessantes:

Descobri que o seu nome se escreve assim (ou pelo menos é assim que consta da caderneta da marinha) e não Guaraçuí como ela me havia dito... (segundo ela, o seu nome significa na língua nativa "Flor de Maracujá").

Que ela trabalhou como camareira para a Marinha Mercante desde 1963, altura da sua inscrição, quando tinha 25 anos, até pelo menos aos anos 90.

Ela me contou essa história muito louca de como se envolveu num tiroteio enquanto policial, e também falou que nunca teve realmente amigos na civilização, e que índio é muito "arredio". Prometeu falar mais sobre o tema da "inveja" num próximo encontro.



sábado, 15 de novembro de 2014

electron

Comprei meu orgão eletrónico quando me mudei para o centro do Rio, um yamaha electron dos anos 80, que encontrei num bazar em Benfica (que é também nome de freguesia em Lisboa, aliás onde eu nasci).  O órgão foi muito barato, e funcionava bem, por isso o comprei, porque achei bonito e adoro tentar tocar, aliás a minha grande paixão sempre foi a música. Quando cheguei em casa, cometi a asneira de o ligar na tomada errada, de 220v, e ele puff! pifou. Tive de chamar alguém para o consertar, e assim o barato saiu caro, mas o órgão funcionou de novo. Só que não totalmente, pois só tinha dinheiro para o arranjo parcial, então a caixa de ritmos ainda espera pelo senhor Jair Malaquias. 

De vez em quando experimento o som dele. Adoraria que viesse alguém cá a casa que soubesse tocar de facto para eu perceber melhor do que é capaz. Tenho de convidar alguém. Acho o som lindo!...

Ontem ao final do dia fiz esta improvisação, e a partir dela este vídeo inspirado pela visita de Diego, que veio de manhã me ajudar com o móvel

                                       


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Um dos meus poetas preferidos é o Manuel da Bandeira, pernambucano que sofria de tuberculose. 
Aqui alguns dos poemas que mais gosto:

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Mascarada 
 Você me conhece? (Frase dos mascarados de antigamente)

- Você me conhece?
- Não conheço não.
- Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores...
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
- Não conheço não.

- Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia...
Era a minha fala
Canto e persuasão...
Pois não me conheces?
- Não conheço não.
- Choraste em meus braços
- Não me lembro não.

- Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!

Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?

- Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.

A Morte Absoluta  

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

hoje é outro dia #2

"Se tomardes a vida com excessiva severidade, que atracção tem? Se a manhã não vos convidar a novas alegrias e se à noite não esperardes nenhum prazer, valerá a pena vestir-se e despir-se?"

hoje é outro dia #1

"Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?"

domingo, 9 de novembro de 2014

celebrar o abandono

Vim agora de Santa Teresa e como sempre neste bairro achei uns stencils e graffitis bem interessantes no caminho... Infelizmente só estava com meu celular, pelo que a qualidade do meu registro não foi a melhor, mas captei vários dizeres e formas que me chamaram a atenção, dialogando com meu pensamento, como "coração: não faça o crime se não vai cumprir a pena" ou "eu sou o chão pensando" numa nuvem rente ao asfalto, ou este "como celebrar o abandono?", ou ainda um bastante colorido que achei a cara do Rio: "o desapego é meu e isso ninguém tira de mim".
 

Me lembrei desta menina que fotografei uma vez no aterro, quando lia meu livro e relaxava no sol, antes de ir no MAM. Ela e a amiga tentavam subir na árvore onde eu estava encostada.


" Deixar de chorar é se dá conta de seu próprio abandono "

Conversa entre a Irmã e a Santinha
Paraíso Novela 2009

O tema do abandono já inspirou muita reflexão e obra de arte, desde o Jacques Brel ao par de sapatos velhos da pintura de Van Gogh, que Heidegger interpreta na sua A Origem da Obra de Arte assim:
Sob a sola encontra-se a solidão do caminho do campo que se perde quando a noite cai. Nesses sapatos vibra o apelo silencioso da terra, seu dom silencioso do grão que amadurece, sua secreta recusa de si mesmo no árido pousio dos campos invernais.

Aceitando o desafio do cartaz, aqui fica esta conhecida música da Piaf, na versão da Cássia Eller.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Diego

Conheci o Diego três semanas atrás, quando o meu carro ficou em pane aqui na minha rua, em baixo do viaduto. É um problema antigo de sobreaquecimento que o carro tem, e que espero ver resolvido esta semana. Ele me ajudou a colocar água no depósito à frente, e ficámos conversando um pouco. Passado uma semana, quando vinha a pé do metrô, no mesmo local, encontrei-o novamente, e falámos mais. Ele me contou que dormia na rua, que tinha sido expulso de casa por causa de uma televisão, que morava longe, a uma hora do Rio, e eu fui andando com ele, até que nos sentámos para comer. Ofereci-lhe o jantar e uma cerveja, e perguntei-lhe onde podia arrumar erva, eu que até nem fumo, não sei porquê, talvez porque me pareceu uma ponte possível, pois alguma coisa me intrigava nele. Combinámos ir comprar erva num lugar que ele conhecia. Passado uns dias ele me levou à favela do amarelinho, um lugar onde se vende a droga a céu aberto, 24h/ dia, em saquinhos em cima das mesas guardadas por traficantes armados, onde não entra polícia nem desconhecido. Eu não sabia o que esperar, mas confiei em Diego, e ele me guiou, me protegeu. A gente deu o braço lá dentro, e a coisa passou-se... fiquei esperando até vê-lo chegar com o equivalente a 25 reais de maconha num saquinho etiquetado "a melhor do amarelinho" em letra de computador. Eu levava minha câmara, pois ele me tinha dito que em seguida iríamos visitar a sua comunidade, e eu queria conhecer esta parte da cidade, imaginando ver um Rio que a gente sabe que existe mas quase nunca vê.  

E assim foi, continuámos no ônibus até Senador Camará, zona oeste da cidade, até à favela do Sapo.

Diego não falou muito sobre o que queria fazer, e eu segui-o. Fomos até sua casa, mas sua mãe não estava, e então ele me fez rodar a favela inteira, subindo o morro, eu notava seu orgulho em apresentar uma estrangeira, loira, eu de vestido de pano africano, escondendo minha câmara na bolsa. Mas confiava na sua bondade e instinto, desde o início. Parámos depois em casa de um tatuador seu amigo, que lhe fez a sua 19ª tatuagem: o ícone da NBA, o Michael Jordan a afundar a bola de basket no seu pescoço.



Diego me levou depois a casa de um outro amigo, o Alexandre, e aí me contou como é viver numa favela comandada pelo tráfico, e das diferenças entre viver em uma favela comandada pela milícia, ou numa favela pacificada pelas UPP´s. Pelo que percebi cada uma tem a sua lógica própria, mas todas giram à volta de um só juiz: o dinheiro.