Língua

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Amigo Brasileiro

Não há como passar o dia com temas complicados como o naturalismo das emoções, filosofia da ética, metaética, a comparação da Antropologia da Face Gloriosa com a da Face Saudosa (vídeo que minha amiga Ana fez para o Museu Encantador e que pretendo usar pra ilustrar meu trabalho), as razões culturais e simbólicas para as emoções exprimidas no rosto (com água gergelim geleia de morango e recusa de idas ao festival do Rio e à praia pelo meio), para chegar aqui, procurando por uma entrevista da Amália que lembrava que vi há meses em que ela fala da saudade, e de como para o português o choro é uma emoção que é internalizada - chegar aqui agora, a esta deliciosa canção que eu nem sequer sabia que existia, entre o Rio de Janeiro e Lisboa, e que a única coisa que me faz pensar é, entre outras coisas, que a emoção tem muito que se lhe diga (será que cai do céu?), e ao invés de pensar, sorrir por exemplo quando diz "por falares portugueseiro já falo brasileirês"...

...e nada de encontrar a entrevista. O que encontrei foi a referência à música, que é da autoria do Carlos Paião, de 1982.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sempre tenho a impressão que Philip Garrel é um cineasta que ainda não conheço (que vi uma ou outra vez numa sala no estrangeiro, talvez quando morei em Paris) e ao mesmo tempo são-me familiares cenas de seus filmes, como aquele início de uma plateia de crianças deslumbradas com um teatro de marionetas, os seus olhos e os risos ao nível da câmara, ou alguém que espera junto a um carro abandonado, encostado à parede, fumando... pois tal como diz o artigo Philippe Garrel, Cinema Vulcânico, da excelente revista de crítica eletrónica Contracampo "o cinema de Garrel é acima de tudo um cinema de situações, de pedaços desgarrados de tempo e espaço, de impressões, delírios, indecisões, medos, indefinições, prazeres."

Philippe Garrel faz parte de uma geração no cinema francês que desconfiou dos poderes e dos pressupostos da narrativa, e aproveitou o momento de liberação que foi a Nouvelle Vague para fazer seu estilo evoluir não exactamente contra (como Godard), mas antes buscando algo primitivo, algo originário na imagem, que teria sido desvirtuado por uma ênfase eminentemente narrativa do cinema.

Aqui dois momentos que escolhi entre tantos outros que fazem do seu cinema uma experiência singular, e que me dão vontade de conhecer mais.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

homo emocionalis

As emoções têm muito que se lhes diga. Até quando começamos a pensar nelas, de modo criterioso, utilizando-as como objecto de estudo social, é inevitável começarmos a duvidar delas, no decurso da produção de nossa pesquisa teórica.

Tenho andado às voltas com o tema do meu trabalho para Antropologia das Emoções, não sabendo se me adentre no clássico debate do determinismo biológico versus dimensão simbólica/cultural das emoções, indo buscar as recentes descobertas da neurociência em relação ao papel da consciência, no que pode ser a defesa de um "naturalismo mitigado" tal como fala António Damásio, alertando para a importância da homeostasia (que situa a regulação da Vida para além da vida do cérebro humano), ou se fale de outra coisa qualquer. Por exemplo, indo buscar a história das lágrimas de Anne Vincent-Buffault, que explica que quando alguém chora, estabelece uma relação, espera uma resposta. Ela esclarece a troca de lágrimas e suas regras, de como as lágrimas derramadas em família regulam à sua maneira os deveres e os direitos, ou de como a retórica das lágrimas presente nos romances literários do séc. XVIII (verte-se torrentes ou caudais de lágrimas, rega-se ou molha-se com lágrimas), época em que a presença do corpo é discreta, vai permitir que a sensibilidade dos personagens se torne carnal. Ou ainda posso me debruçar sobre o pertinente artigo de Celso Castro, homo solitarius: notas sobre a gênese da solidão moderna que mostra como a existência do solitário enquanto tipo social que nos é familiar só se tornou possível há relativamente pouco tempo...

(Este é o texto, aliás, que iremos debater hoje na aula.)

Ele distingue entre os "solitários" religiosos de diversos tipos que sempre existiram na tradição cristã, do anacoreta ao eremita, que procuram a solidão como uma forma de ascensão espiritual, e todos aqueles que evitam a sociedade por ódio ou aversão à sociabilidade humana, e cujo arquétipo pode ser visto na peça de Molière de 1656, O Misantropo.  O afastamento da vida em sociedade é atribuído, neste caso, a motivações que, embora desenvolvidas por indivíduos singulares, têm sua origem no domínio da natureza, como na referência à atrabilis, a  “bílis negra”, humor imaginário que se julgava ser a causa de tal postura. O misantropo Alceste, apaixonado pela coquete e mundana Celimena, não suporta os costumes, a “falsidade” da vida cortesã e sente vontade de “fugir para um deserto da humana companhia.” Embora seu amor tenha tudo para ser retribuído, Alceste não consegue manter o mínimo “distanciamento do papel” (na expressão de E. Goffman) que a etiqueta cortesã exigia. O final da estória não é feliz, o que surpreendeu o público das comédias da época. O misantropo, sentindo-se,  equivocadamente, traído e injustiçado, decide “sair de um abismo onde o vício triunfa e ir buscar sobre a terra um lugar afastado onde um homem de honra ainda possa viver e para isso ainda tenha a sua liberdade.”
 
Mesmo isolado na biblioteca que construíra na torre de seu castelo, o nobre Michel de Montaigne escreve que os tormentos da vida “acompanham-nos até nos claustros e nas escolas de filosofia. Não há desertos, cavernas ou rochedos, mortificações e jejuns que nos libertem.” A solidão aparece, nesse ensaio de 1580, como um prêmio a ser alcançado após a penosa vida em sociedade, a vida que vivemos “para os outros”.

Esse gosto da solidão expresso por Montaigne é considerado por Ph. Ariès como um dos indícios do processo de privatização que teria se desenvolvido nas sociedades ocidentais entre os séculos XVI e XVIII. A solidão passava a ser vista não mais apenas como ascese, mas também como algo que se buscava por prazer, ao menos por alguns momentos.

 


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

ontem vinha na ponte depois das aulas, no meu carro, para o Rio, o rádio-cd nessa canção dos Beatles, What You´re Doing, uma das minhas preferidas deles, com um riff de guitarra que combinou com a vista, o Redentor branco lá no alto e a imensa cidade horizontal... e pensei nesse amor pelas águas da baía onde se refletem os sonhos de muitos, indo e vindo, todos os dias.

diz Mário de Andrade no poema As Cantadas, sua visão erotizada da baía:

"Ai, ares da Guanabara,
Sou jogado em praias largas,
Coxas satisfeitas feitas
De ondas amargas. "

aqui um vídeo que fiz da travessia da barca, sob um improviso ao violão.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

contra informação

Hoje fiquei agradavelmente surpreendida com a reação do chaveiro aqui da esquina, que contrariando a bonomia habitual do brasileiro, para quem está sempre tudo bem e recomenda-se, me falou que está de saco cheio das pessoas que lhe pedem informações, sobre os números das portas, os transportes, as comidas, ou o que quer que seja. Eu, enquanto esperava a cópia da minha chave para dar à minha amiga Ana que chega hoje de Portugal, me diverti a ver o caderno de sua autoria com os avisos ao longo do tempo defendendo esse seu princípio


Ele me contou, com o desprezo de quem tem de lidar diariamente com tamanha burrice, todavia incrédulo, que há pessoas que de vez em quando lhe pedem para fazer "metade da chave", e que uma vez lhe perguntaram: "você precisa da chave original pra fazer uma cópia?"








segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Amanhã entrego as chaves do meu apartamento ao proprietário. Entrei uma última vez hoje ao final da tarde, fazendo a vistoria das últimas coisas que queria recuperar, duas facas de serrilha, uma toalha amarela jogada no chão, uma cortina com varão, e quando voltei pra buscar a cadeira onde subi pra pegar uma lâmpada, tirei esta última foto ao espaço onde vivi durante meu primeiro ano no Rio de Janeiro. 
 




sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Light

numa semana em que depois de mudar fiquei sem luz, e sem compreender bem porque os funcionários da companhia de electricidade Light iam e vinham, e meu proprietário ligava, e a seguir ligava eu, e passados 4 dias ainda nada de acender uma lâmpada, nem bateria de celular nem placa de cozinha funcionando, geladeira gelando, nada....

eis que hoje se fez luz! e em vários e múltiplos sentidos...

quando saí para ir tomar o café da manhã onde vou sempre, no Cantinho do Senado, que tem os melhores sucos da área em especial o Cupuaçu ao leite, e o misto quente em boa qualidade de pão (coisa rara por aqui), fiquei algo surpreendida pois que não havia luz, então não havia cozinha!... mas reparei que o boteco mesmo em frente, chamado Bar Nova Esperança, estava a funcionar normalmente.  Perguntei à senhora do balcão como é que havia luz ali sendo que o quarteirão parecia apagado, ao que ela me respondeu rindo "pois é, outro dia a gente que não tinha, e o Senado estava com luz! é que é outra rede, aqui." Tá. Lá me sentei a comer, um suco de abacaxi e um sanduíche, quando reparei nesta notícia na parede:


Fiquei até curiosa por saber mais sobre a Baronesa, mas não encontrei nada na net. Ao invés disso, aqui fica uma imagem de um pé de dança nesta esquina, por ocasião da tradicional Feira do Lavradio (ou Feira do Rio Antigo) que acontece no primeiro sábado de cada mês. 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Expectativas

Do you ever wish you'd never worn that swan dress to the Oscars ceremony in 2001?
What surprises me is that they thought I was trying to fit in but got it wrong, that I expected everyone to be wearing peacock dresses and gorilla outfits!... What they don't mention is that I had brought six ostrich eggs with me and I was dropping them carefully on the red carpet. But other people's bodyguards kept picking them up and saying in their thick American accents, "'Scuse me, mam, you dropped this."       
Björk

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.

Trouxe bailarinas?
Trouxe imigrantes?
Trouxe um grama de rádio?

Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

45 anos

 
 

 "A Árvore Cortada", de Adília Lopes
   
 
45 Anos  

É tempo
de regressar
a casa

 
A poesia
não está
na rua 

sábado, 6 de setembro de 2014


pronto. agora em vez de morar em número ímpar, moro em número par. agora em vez de me deitar na minha cama, e ir tomar duche à direita, entro na cozinha, no banheiro, no meu quarto, à esquerda. 

mudei-me em tempos de eleições, para um apartamento que era à direita pra um apartamento à esquerda, não posso deixar de fazer esta piada fácil, numa altura em que se trocam todo o tipo de polémicas sobre os candidatos e em que eu finjo que percebo alguma coisa, entre os tipos da Light empresa da luz que vêm 3 vezes num só dia tentar ligar a electricidade,  os homens das obras que segundo o porteiro subornaram a prefeitura por causa do estacionamento, e o cara da Detran a quem eu pago 60 reais por semana para me guardar uma vaga e impedir que me multem. Rio de Janeiro, a cidade dos mil e um esquemas, em que ninguém retorna ligação, e há sempre mais um gole para a viagem.  

Não se dorme na Lapa num sábado à noite, enquanto escrevo.

Hoje li no jornal que a Marina vai à frente no Rio de Janeiro.

E enquanto desempacotava e arrumava, reparei neste "recado" na parte de trás do meu modem, produzido em Manaus, que diz: "conheça a Amazónia". Eu por mim vou já amanhã conhecer a Amazónia!...
 
Art. 45 As empresas cujos produtos sejam incentivados pela Suframa deverão inserir, com destaque , 
as expressões “ PRODUZIDO NO PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS ” e “ CONHEÇA A AMAZÔNIA”, 
juntamente com o desenho estilizado de uma garça em pleno vôo 

 
à esquerda fica o coração, e por isso se deve brindar com essa mão, ouvi dizer.

segundo o Dicionário de símbolos:
Na Bíblia, olhar à direita é olhar para o lado defensor; é lá o seu lugar. Como será o dos Eleitos no Juízo Final, quando os Danados ficarão à esquerda. A esquerda é a direção do inferno; a direita, do paraíso.
Em política, a direita simbolizaria a ordem, a estabilidade, a autoridade, a hierarquia, a tradição, uma relativa auto-satisfação; a esquerda, a insatisfação, a reivindicação, o movimento, a busca da justiça social, de maior progresso, a libertação, a inovação, e o risco.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Demain on déménage

Amanhã mudo-me para o apartamento do lado. Meu proprietário decidiu vender meu apartamento, e não esse do lado, que também é dele, e que é igualzinho ao meu mas talvez um pouco menor e com uma planta que não me agrada tanto (a sala não é tão grande). Enfim, depois de um esforço de meses a compor a casa, espelhos, candeeiros, armários, etc, eis que tudo recomeça, e sem luz. Sim, porque ele ainda não conseguiu que ligassem a eletricidade lá...

Hoje eu ia na ponte Rio-Niterói a maldizer esta minha sina de andar em constante adaptação nos últimos tempos (anos), experimentando os cd´s antigos que trouxe de minha casa de Lisboa, já que o meu carro tem rádio-cd, aquele que obriga a guiar com redobrado cuidado para a música não saltar... e deparei-me com esta linda canção do Caetano que já não me lembrava que existia, mas que tem o condão de me acalmar... culpa deste maravilhoso baixo que a pontua.