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domingo, 12 de outubro de 2014

Cineasta dos sonhos interrompidos

Cineclube Brasil: Como surgiu o título “Cineasta dos sonhos interrompidos”?
Sílvio Tender: O Arnaldo Carrilho, que hoje é embaixador do Brasil na Coreia do Norte, velho cinéfilo e nosso amigo, quando eu lancei Glauber e depois Milton Santos, me definiu assim. Ele demonstrou que todos os meus personagens, de uma maneira ou outra, por alguma razão, interromperam a obra que estavam fazendo.


Hoje vi o novo documentário Privatizações: a Distopia do Capital de Sílvio Tendler, um diretor que sempre gosto de acompanhar, pela forma como trata as imagens de arquivo e as relaciona com a história do Brasil e do mundo, convidando à reflexão. 

Professor da cadeira de Cinema e História na PUC do Rio, o cineasta carioca é curiosamente detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro.

A primeira vez que ouvi falar dele foi na Jornada Internacional de Cinema da Bahia em 2006, em Salvador, com um filme sobre a obra de Milton Santos e os processos da globalização.  Depois lembro-me de ver seu filme Utopia e Barbárie no Cineclube Savassi em Belo Horizonte, atualmente extinto. Recentemente uma colega me falou também do seu filme anterior sobre o agronegócio, O Veneno Está na Mesa, e finalmente hoje, por via de outro querido colega de Lisboa, acabei assistindo este, sobre as privatizações no Brasil nos anos 90, e a relação do capital financeiro com o Estado.

Acho interessante ver este filme numa altura de debate eleitoral, em que se pensa o rumo do país, e tantas vezes se confunde aquilo que é essencial, com a politiquice (vejam só a quantidade de sinônimos que existem para esta palavra: politicagem politiquês politicalha politicaria politiquismo...)

Aqui a passagem que mais me chamou a atenção, e que me fez lembrar um comentário recente do antropólogo Viveiros de Castro, dizendo que o Brasil "sempre foi dos outros":

"...nos últimos anos os bens naturais, a terra, a água, as florestas, estão sofrendo uma ofensiva do capital internacional, que, para se proteger da crise europeia do hemisfério norte em 2008, correu aqui para o Brasil para se transformar em patrimônio e escapar da crise... então, nos últimos dois, três anos, mais de 200 bilhões de dólares de capital financeiro especulativo veio ao Brasil e se transformou em terra, em usina de etanol, em usina hidroelétrica, inclusive se apropriando da própria atmosfera... pois eles agora fazem esses cálculos de quanto oxigênio cada hectare de floresta tropical emite na atmosfera, transformam em título,  e vendem nas bolsas da Europa como crédito de carbono para as empresas poluidoras… e ganham dinheiro até com a especulação desses títulos, já tem duas empresas que fizeram isso com áreas indígenas do Acre. ...nós brasileiros perdemos a soberania sobre o nosso maior patrimônio, que é a terra, a água... e agora até sobre o nosso ar." 

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