em vésperas de prova, aqui partilho um excerto que de certo modo dialoga com o post anterior, ao continuar a problematizar a noção de natureza e cultura como dialética entre invenção e convenção, o que para os norte-americanos existe em termos diferentes que para os Daribi da Nova Guiné. Roy Wagner estabelece um paralelo entre a magia que serve de motivação à atividade produtora do povo melanésio, com a magia da propaganda na cultura norte-americana, e seus efeitos de enorme relativização que levam a um convencionalismo que ele critica.
e para quem quer uma coisa mais light e agradável aqui um daiquiri de morango, uma canção, pode criar um passatempo com palavras, ou ainda ler uma entrevista ao autor de quando ele passou pelo Brasil em 2011.
A Magia da Propaganda
A Magia da Propaganda
O
que a propaganda nos pede (e eventualmente nos compele) a fazer é viver
em um mundo de "magia" tecnológica, onde maravilhas fabricadas pelo
homem curam males e fazem da rotina de todos os dias um milagre
contínuo. A propaganda nos convida a tornar nossa a magia que há nela.
Assim como o agricultor daribi precisa acreditar na efetividade de seus
encantamentos para que eles refocalizem com sucesso sua atividade e
tragam recompensas reais, o consumidor precisa confiar numa mística da
eficácia química e mecânica para que sua própria "magia" alcance seus
fins. O foco de poder da vida cotidiana daribi está na força das
palavras, no poder da invenção e de um saber arcano; o da vida cotidiana
norte-americana, para a maior parte das pessoas, está no uso da
tecnologia para resolver seus problemas. Indiscutivelmente, e às vezes
de modo bastante inconsciente, atribuímos toda sorte de qualidades
"naturais" a substâncias químicas e máquinas, e então as incorporamos em
nossas tarefas de modo a fazer uso dessas qualidades. Diz-se que os
computadores têm "inteligência": nós os colocamos para trabalhar
resolvendo cálculos e arranjando encontros amorosos; tanques de guerra e
armas automáticas têm capacidades destrutivas: travamos nossas guerras
em grande parte com eles; drogas têm poder sobre a terra prometida da
constituição física humana: nós as utilizamos para aumentar as
habilidades de uma "mente" supostamente física. Boa parte de nosso
pensamento e nossa ação equivale a uma habitual objetificação da
capacidade humana - ou da própria "natureza", em termos tecnológicos.
Chegamos mesmo a conceber os seres vivos mecanicamente como "sistemas"
orgânicos, a criatividade como "solução de problemas" e a própria vida
como um "processo". Contudo, uma Cultura "naturalizada" e
particularizada e uma natureza organizada e sistematizada fazem parte de
um mundo altamente relativizado, cuja distinção crucial entre "o que
fazemos" e "o que somos" vem sendo substancialmente erodida e
desmantelada pela troca de características. As formas convencionais de
nossa Cultura, inclusive a tecnologia, nos diferenciam e separam quase
tanto quanto unificam um controle comum da "natureza"; a "natureza"
particular e diferenciante que nos cerca (o Meio Ambiente) e infunde (o
"sistema" comportamental humano) unifica tanto quanto traça distinções.
Em consequência, a objetificação de cada um por meio do outro é
altamente tautológica: sistematizamos sistemas e particularizamos
particularidades. A frustração engendrada por tal mundo, que não pode
nem realizar nem criar seus próprios significados de forma efetiva,
rapidamente se resolve numa apatia motivacional quanto à Cultura e à sua
percepção tradicional do "eu" e numa profunda reação de antipatia
diante de soluções tradicionais, numa necessidade de "fazer algo a
respeito" das coisas. Essa é a necessidade que requer e propicia a
criação comercial de necessidades em que consiste a propaganda. Para que
seja bem-sucedida, a propaganda requer tanto uma apatia em relação à
Cultura tradicional, quanto a frustração de "querer fazer algo a
respeito".
A propaganda se redime da acusação de
ser excessivamente "séria", de manipular as necessidades e os desejos
das pessoas, sendo engraçada. Um comercial engraçado é um bom comercial:
ele se safa do fato embaraçoso de que é "apenas um comercial"
fornecendo entretenimento (outros fornecem "notícias" ou redenção). Sob a
máscara do entretenimento, da informação ou da redenção, a propaganda
fornece sua pequena contribuição ao trabalho de criar a Cultura criando
sua ambiência, sustentando "a economia" ao renovar nossa credibilidade.
Junto com as outras facetas da cultura interpretativa, ela nos salva da
apatia e do caos da relativização e da ambiguidade à custa de sua
própria seriedade - faz da distinção entre o inato e o artificial uma
distinção real ao refestelar-se em sua artificialidade.
Assim,
nossa ostensiva interação entre Cultura e natureza é, de fato, uma
dialética da convenção continuamente reinterpretada pela invenção e da
invenção continuamente precipitando a convenção. Mesmo essa renovação,
porém, está constantemente perdendo terreno, pois na medida em que os
efeitos da interpretação se tornam cada vez mais óbvios, a distinção
essencial (Cultura versus natureza) que ela precipita sofre uma
relativização cada vez maior. Tornamo-nos cada vez mais dependentes da
interpretação e do entusiasmo pela renovação que a inter-relação gera. A
Cultura sucumbe ao culto da Cultura porque tem de fazê-lo. E se os
ecologistas, com seu instinto certeiro para ir ao fundo da moralidade e
da seriedade, falam da coisa toda em termos de "vida" e "sobrevivência",
deveríamos considerar uma coisa. Um rio ou um lago poluído (poluição é
Cultura do ponto de vista da natureza) fervilha de vida. Trata-se de
"sobrevivência" no máximo de sua efervescência: onde umas poucas células
ganhavam a vida com dificuldade, agora pululam milhões. Uma "cultura de
massa" bacteriológica, de fato, mas uma "vida" que ninguém realmente
quer.
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