Língua

domingo, 29 de março de 2015

MIAU

a minha noite ontem foi marcada pela surrealidade e pelo afeto, feito de novos encontros e também de memórias comuns entre Lisboa e o Rio.  Começou com um casamento num casarão em Santa Teresa, em que a noiva cortou o dedo e foi parar ao hospital, e então os convidados ficaram esperando por ela para dar início à cerimônia, realizada num jardim felliniano decorado com unicórnios e girafas gigantes, desenhos pelo ar, por cima de uma língua de almofadas e lâmpadas coloridas. No meio da sala de entrada tinha esta gata mãe com seus filhotes recentes, mamando. 

No final da noite, depois de um concerto punk-rock da banda "A batida que o seu coração pulou" num clube alternativo no centro do Rio, que adorei conhecer, acabámos numa festinha de rua com música ao vivo perto da praça Tiradentes, com um boteco encantador às cores lilás e azul, grades de cerveja amontoadas, um banheiro sem porta, e uma linda e antiga jukebox de parede, absoleta. A música estava na rua, e era essa mistura heterogênea de estrangeiros com sem-abrigo, estudantes, novos e velhos dançando, que podemos encontrar aqui, celebrando o momento ao som instrumental dos hits de Vinicius, Tom Jobim, ou do Carimbó.

Às tantas apareceu este gato, que ficou pairando sobre nós.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Carrinho dos peluches

Hoje quando chegava em casa na Lapa, cruzei-me com o carrinho dos peluches, que de vez em quando vejo aqui no centro, passando com música alta e todo coberto com os animais de "pelúcia"como se diz aqui no Brasil (até na roda tem um!...) que não sabia se estavam à venda, ou se representavam uma decoração personalizada do carrinho. Hoje parei no semáforo ao lado dele, na bicicleta, e aproveitei para tirar algumas fotos e satisfazer a minha curiosidade: os peluches são mera decoração sim, o senhor é vendedor de água (garrafões) e cerveja...

Com três GPS, ele explicou-me que cada um serve uma finalidade diferente: um monitora o trânsito, o outro indica o caminho, e o outro não percebi.


 
Mais à frente, cruzei-me de novo com ele, que ia estacionar o carrinho na garagem de todos os dias, e aproveitei pra filmá-lo:

 

domingo, 22 de março de 2015

“Fuck you. Fuck you. Fuck you for rejecting me by never being there, fuck you for making me feel like shit about myself, fuck you for bleeding the fucking love and life out of me, fuck my father for fucking up my life for good and fuck my mother for not leaving him, but most of all, fuck you God for making me love a person who does not exist.
FUCK YOU FUCK YOU FUCK YOU.”

Sarah Kane, 4.48 Psychosis

quinta-feira, 19 de março de 2015

Cine Brasil

"Quando se fala de cinema do Recife, ou de Natal, é Nordeste. Quando se fala de cinema de São Paulo, é cinema de São Paulo e mais nada. Quando se fala de cinema no Rio, fala-se de cinema brasileiro."

Ontem fui na inauguração de um evento que se entenderá ao longo do ano, e que tenciono seguir com atenção: trata-se de um ciclo de cinema brasileiro no Arquivo Geral da Cidade, organizado pelo departamento de cinema da UFF (a minha faculdade) com apresentação de professores e artistas sobre a representação da cidade do Rio de Janeiro no cinema, desde o aparecimento deste até aos dias de hoje.

Para esta sessão de abertura, a acompanhar a conferência "Os Mistérios do Rio de Janeiro", vimos o filme O Uivo da Gaita (2013), do cineasta carioca Bruno Safadi, meu recente e querido amigo com quem vim de carona mês passado de Belo Horizonte, e que já me tinha falado um pouco no filme, me deixando curiosa... O filme trata de um triângulo amoroso e passa-se na Casa das Canoas que o arquiteto Oscar Niemeyer concebeu para morar longe do bulício da cidade, nos idos anos 50, num São Conrado antes da Rocinha e da expansão de Ipanema e do Leblon.

O filme é bastante sensorial, em parte devido ao trabalho sonoro que pontua as ações, inquietando o espectador, fazendo ecoar nele o incômodo da mulher que quer partir, deixar a casa, a sua vida?, o Rio. Não sabemos exatamente porquê, de que modo, que inquietação ao certo é essa, afinal ela parece entregar-se ao prazer e à ambiguidade da relação livremente, ora comendo um peixe numa mesa cuja loiça se parte deixando escorrer a água, lembrando a água do mar que vimos ao início onde ela e a outra mulher, sua amante, navegavam num barquinho. Linda vista a partir da praia do forte de Imbuí, que alguém falou dialoga com o sentido pictórico do final do século XIX, em que vemos o pão de açúcar num enquadramento geral, escala essa que raramente se encontra no cinema brasileiro do início do século XX.

As vistas aéreas, que em muito contribuíram para a formação de uma certa imagem-clichê do Rio de Janeiro, são todas feitas por estrangeiros até aos anos 30. Raramente é encontrada uma contextualização das cenas no cinema brasileiro desta época, diz o professor Hernâni Heffner, referindo-se ao conjunto de filmes encomendados por Oswaldo Cruz, sobre o saneamento básico do centro. Segundo ele, estes filmes apresentam uma familiaridade que dispensa créditos ou planos mais abertos das ruas e/ou fachadas...

Achei interessante esta análise da ausência de planos abertos, de contextualização da cidade, em que o registro documental também é desprovido de "magnitude": o professor refere os filmes dos funerais de figuras ilustres da época, como João do Rio, em que se faz referência aos jornais onde o cronista escreveu, e nunca se mostra o entorno, a cidade...  

No filme do Bruno, gostei bastante de uma passagem que talvez funcione como uma chave pra desvendar o enigma que o filme propõe: trata-se de um trecho das "Profanações" do filósofo Giorgio Agamben, em que Dom Quixote acaba rasgando a tela de cinema:
O que devemos fazer com nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas a ponto de as devermos destruir, falsificar. Mas quando no final se revelam vazias, insatisfeitas, quando mostram o nada de que são feitas, só então (importa) descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia - que salvamos - não pode nos amar.
"Qual seria a imagem proteica por um lado do cinema, por outro, da cultura brasileira?", desafia o professor Hernâni.

A partir de uma análise de "O Uivo da Gaita", ele discorre sobre os significados do cinema marginal dos anos 60/70, já que o filme se insere numa trilogia que o invoca diretamente. Para esse cinema marginal de baixo orçamento, que denotava um desencantamento da realidade, apoiado numa radicalidade criativa, a invenção do Brasil não é tanto a que aconteceu na semana modernista, mas teria mais a ver com o universo do samba na década 10 do Séc. XX, retratado no curta de Sylvio Lanna, "Malandro, Termo Civilizado".

Estes filmes, em que o figurino remete para o séc. XIX ou os anos 50, como num sonho indiferenciado, quase todos passados na zona sul, nos quais mal se vê o mar nem se olha para a paisagem, vão promover uma desnaturalização dessa tal ideia da cidade construída a partir de um olhar estrangeiro. Basta pensar em Terra em Transe, em que a cidade é um El Dourado em que os planos aparecem estourados, com o fundo desfocado, sem contexto.

E assim se diz na palestra, que o cinema brasileiro não acredita no projeto modernista.

E no filme do Bruno, alguém diz que é difícil perceber o que querem estas personagens, representantes afinal da burguesia, da elite... com um incômodo existencial, o desejo de evasão que a cidade parece provocar nelas. O marido vai embora? Elas ficam juntas? Em busca do quê?   

Para Agamben, quando o sagrado é impeditivo da ação política, a lógica do processo não é mais você tornar sagrado mas sim resgatar o profano para que este vire novamente sagrado, mas agora com outras significações...

Deixo-vos com a música do filme, que gostei muito, na voz do grande Dorival Caymmi.



quarta-feira, 11 de março de 2015

BANANA

Daquelas coisas que só aprendemos na Wikipédia:

BANANA é um acrónimo para Build Absolutely Nothing Anywhere Near Anything (ou alguém). O termo é mais frequentemente usado para criticar a atual oposição de certos grupos de interesses à construção de urbanizações ou instalações indesejadas como centros de aterro sanitário ou instalações industriais.