Hoje à tarde fui passear no jardim botânico, e aproveitei para ler a Carta de Lord Chandos de Hugo von Hofmannsthal, publicada num jornal de Berlim em 1902, e editada em livrinho pela Chão da Feira. Nesta carta fictícia datada de 22/09/1603, Chandos dirige-se ao filósofo Francis Bacon (considerado o fundador da ciência moderna), para explicar por que abandonou a sua promissora carreira literária.
[...] é assim porque a língua na qual eu seria capaz não só de escrever mas também de pensar não é a língua latina, nem a inglesa, nem a italiana ou espanhola, mas sim uma língua de que não conheço uma única palavra, uma língua na qual as coisas mudas me falam, e na qual eu talvez um dia, no túmulo, tenha de responder perante um juiz desconhecido.
A carta surge como uma imagem dentro de um
vasto panorama artístico e filosófico que marcou as primeiras décadas
do século XX. A crítica da linguagem empreendida por Hofmannsthal é
carregada de um ceticismo e de uma negatividade ambivalentes, num período de intensa crise de valores que culmina na Primeira Guerra Mundial.
O motivo central da carta é o anúncio de
uma desistência: Lord Chandos está informando seu amigo que, a partir
daquele dia, nunca mais escreverá literatura. Chandos desconfia da
linguagem, da cultura e da civilização — e o fato de estar utilizando
justamente a linguagem para comunicar esse abandono é parte constituinte
de sua angústia. Como deixar de lado algo que faz parte da própria
natureza humana? “O meu caso é, em poucas palavras, o seguinte”, anuncia
Lord Chandos: “perdi completamente a capacidade de pensar ou falar
coerentemente sobre o que quer que seja”.
O relato de Lord Chandos é construído
sobre uma base de dúvida e incerteza: ao mesmo tempo que nega a
utilidade das palavras, agarra-se firmemente a elas; ao mesmo tempo em
que denuncia o vazio da vida e das relações entre os indivíduos, propõe
um resgate da esperança e da convivência. Por exemplo: “Toda a
existência me aparecia como uma grande unidade”, escreve Lord Chandos,
“não me parecia haver oposição entre o mundo do espírito e o da matéria,
nem entre seres delicados e brutos, entre arte e não-arte, solidão e
convívio”. Num movimento esteticamente muito eficaz, Hofmannsthal faz a
incerteza deslizar também em direção ao leitor: em que tempo estamos
quando lemos a carta? Diante de qual crise a leitura nos posiciona, a de
1603, 1902 ou 2014?
Pode ler a carta na íntegra, aqui
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