Conheci o Diego três semanas atrás, quando o meu carro ficou em pane aqui na minha rua, em baixo do viaduto. É um problema antigo de sobreaquecimento que o carro tem, e que espero ver resolvido esta semana. Ele me ajudou a colocar água no depósito à frente, e ficámos conversando um pouco. Passado uma semana, quando vinha a pé do metrô, no mesmo local, encontrei-o novamente, e falámos mais. Ele me contou que dormia na rua, que tinha sido expulso de casa por causa de uma televisão, que morava longe, a uma hora do Rio, e eu fui andando com ele, até que nos sentámos para comer. Ofereci-lhe o jantar e uma cerveja, e perguntei-lhe onde podia arrumar erva, eu que até nem fumo, não sei porquê, talvez porque me pareceu uma ponte possível, pois alguma coisa me intrigava nele. Combinámos ir comprar erva num lugar que ele conhecia. Passado uns dias ele me levou à favela do amarelinho, um lugar onde se vende a droga a céu aberto, 24h/ dia, em saquinhos em cima das mesas guardadas por traficantes armados, onde não entra polícia nem desconhecido. Eu não sabia o que esperar, mas confiei em Diego, e ele me guiou, me protegeu. A gente deu o braço lá dentro, e a coisa passou-se... fiquei esperando até vê-lo chegar com o equivalente a 25 reais de maconha num saquinho etiquetado "a melhor do amarelinho" em letra de computador. Eu levava minha câmara, pois ele me tinha dito que em seguida iríamos visitar a sua comunidade, e eu queria conhecer esta parte da cidade, imaginando ver um Rio que a gente sabe que existe mas quase nunca vê.
E assim foi, continuámos no ônibus até Senador Camará, zona oeste da cidade, até à favela do Sapo.
Diego não falou muito sobre o que queria fazer, e eu segui-o. Fomos até sua casa, mas sua mãe não estava, e então ele me fez rodar a favela inteira, subindo o morro, eu notava seu orgulho em apresentar uma estrangeira, loira, eu de vestido de pano africano, escondendo minha câmara na bolsa. Mas confiava na sua bondade e instinto, desde o início. Parámos depois em casa de um tatuador seu amigo, que lhe fez a sua 19ª tatuagem: o ícone da NBA, o Michael Jordan a afundar a bola de basket no seu pescoço.
Diego me levou depois a casa de um outro amigo, o Alexandre, e aí me contou como é viver numa favela comandada pelo tráfico, e das diferenças entre viver em uma favela comandada pela milícia, ou numa favela pacificada pelas UPP´s. Pelo que percebi cada uma tem a sua lógica própria, mas todas giram à volta de um só juiz: o dinheiro.
...a tatuagem ficou assim
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