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terça-feira, 23 de setembro de 2014

homo emocionalis

As emoções têm muito que se lhes diga. Até quando começamos a pensar nelas, de modo criterioso, utilizando-as como objecto de estudo social, é inevitável começarmos a duvidar delas, no decurso da produção de nossa pesquisa teórica.

Tenho andado às voltas com o tema do meu trabalho para Antropologia das Emoções, não sabendo se me adentre no clássico debate do determinismo biológico versus dimensão simbólica/cultural das emoções, indo buscar as recentes descobertas da neurociência em relação ao papel da consciência, no que pode ser a defesa de um "naturalismo mitigado" tal como fala António Damásio, alertando para a importância da homeostasia (que situa a regulação da Vida para além da vida do cérebro humano), ou se fale de outra coisa qualquer. Por exemplo, indo buscar a história das lágrimas de Anne Vincent-Buffault, que explica que quando alguém chora, estabelece uma relação, espera uma resposta. Ela esclarece a troca de lágrimas e suas regras, de como as lágrimas derramadas em família regulam à sua maneira os deveres e os direitos, ou de como a retórica das lágrimas presente nos romances literários do séc. XVIII (verte-se torrentes ou caudais de lágrimas, rega-se ou molha-se com lágrimas), época em que a presença do corpo é discreta, vai permitir que a sensibilidade dos personagens se torne carnal. Ou ainda posso me debruçar sobre o pertinente artigo de Celso Castro, homo solitarius: notas sobre a gênese da solidão moderna que mostra como a existência do solitário enquanto tipo social que nos é familiar só se tornou possível há relativamente pouco tempo...

(Este é o texto, aliás, que iremos debater hoje na aula.)

Ele distingue entre os "solitários" religiosos de diversos tipos que sempre existiram na tradição cristã, do anacoreta ao eremita, que procuram a solidão como uma forma de ascensão espiritual, e todos aqueles que evitam a sociedade por ódio ou aversão à sociabilidade humana, e cujo arquétipo pode ser visto na peça de Molière de 1656, O Misantropo.  O afastamento da vida em sociedade é atribuído, neste caso, a motivações que, embora desenvolvidas por indivíduos singulares, têm sua origem no domínio da natureza, como na referência à atrabilis, a  “bílis negra”, humor imaginário que se julgava ser a causa de tal postura. O misantropo Alceste, apaixonado pela coquete e mundana Celimena, não suporta os costumes, a “falsidade” da vida cortesã e sente vontade de “fugir para um deserto da humana companhia.” Embora seu amor tenha tudo para ser retribuído, Alceste não consegue manter o mínimo “distanciamento do papel” (na expressão de E. Goffman) que a etiqueta cortesã exigia. O final da estória não é feliz, o que surpreendeu o público das comédias da época. O misantropo, sentindo-se,  equivocadamente, traído e injustiçado, decide “sair de um abismo onde o vício triunfa e ir buscar sobre a terra um lugar afastado onde um homem de honra ainda possa viver e para isso ainda tenha a sua liberdade.”
 
Mesmo isolado na biblioteca que construíra na torre de seu castelo, o nobre Michel de Montaigne escreve que os tormentos da vida “acompanham-nos até nos claustros e nas escolas de filosofia. Não há desertos, cavernas ou rochedos, mortificações e jejuns que nos libertem.” A solidão aparece, nesse ensaio de 1580, como um prêmio a ser alcançado após a penosa vida em sociedade, a vida que vivemos “para os outros”.

Esse gosto da solidão expresso por Montaigne é considerado por Ph. Ariès como um dos indícios do processo de privatização que teria se desenvolvido nas sociedades ocidentais entre os séculos XVI e XVIII. A solidão passava a ser vista não mais apenas como ascese, mas também como algo que se buscava por prazer, ao menos por alguns momentos.

 


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