Sexta passada fui com a minha turma de Antropologia da Arte a Engenho de Dentro, visitar o hospital psiquiátrico D. Pedro II, que hoje recebe o nome de Instituto Nise da Silveira, em homenagem à psiquiatra alagoana. Primeiro fomos no Museu de Imagens do Inconsciente, criado por ela em 1952, e em seguida no Hotel da Loucura, ocupação que acontece lá desde 2012.
Eu tinha ido uma vez em 2008 visitar o Museu e os ateliers da terapia ocupacional, e fiquei com vontade de voltar pra filmar, tendo inclusive falado com o pessoal de lá nesse sentido, já que tenho um filme em working progress sobre saúde mental desde 2007, quando comecei a filmar alguns pacientes do centro de saúde mental de Alcântara, que é o bairro onde cresci em Lisboa.
O tema da loucura e das relações que ela provoca interessa-me desde então, pois convivi de perto com esquizofrénicos e terapeutas, não só em Portugal como no Brasil, quando visitei a Estação dos Sonhos, outro centro de saúde diurno localizado em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte.
Sexta feira muitas recordações me vieram à mente, de minhas tardes no jardim do Alto de Sto Amaro com a Teresa, que tinha namorado o filho do ex-presidente da República e que costumava cantar nos salões da alta sociedade, e que agora chorava vendo passarinho, da entrevista que fiz com uma paciente passando roupa a ferro na sua sala falando da arbitrariedade na prescrição dos remédios, dos seus efeitos colaterais. Lembrei-me do olhar do Rui na sua casa escura, com os estores quebrados, me mostrando suas construções em lego, e sua série de fotografias sobre os elétricos da Carris. Lembro-me que ele decorava a trajetória dos ônibus, sabia o nome de cada ponto. E lembrei-me do jeito engraçado de fumar da mulher à frente do grupo de teatro da Estação dos Sonhos, e de seu humor contagiante, quando se mascarou no baile dos anos 60 e dançou o Michael Jackson.
Uma média de 400 internos existe hoje no hospital de Engenho de Dentro. Muitos deles vivem nas enfermarias dos andares onde acontece a ocupação, que pretende cruzar artistas, pesquisadores, e trabalhadores da saúde, numa perspectiva de encontro através do afeto e da inclusão.
Aqui podemos ver alguns dos movimentos que têm vindo a esboçar-se no Hotel, que é a sede da Universidade Popular de Arte e Ciência
E aqui algumas fotos da minha visita





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