Ontem tive uma aula maravilhosa no Museu Nacional sobre a rabeca, dada pelo professor Daniel Bitter, que aqui interpreta uma música tradicional da folia de reis de Minas Gerais.
A rabeca é um instrumento difundido em diversas regiões do Brasil,
associada a contextos musicais populares. Trata-se de um cordofone
tangido por um arco, de fabricação artesanal. Introduzida no Brasil
pelos colonizadores portugueses, a rabeca foi alvo de avaliações
depreciativas em consequência de uma percepção evolucionista e
etnocentrica do Ocidente moderno. Dentro deste quadro creditou-se
estatuto superior ao violino, instrumento que emblematicamente
incorporou valores caros ao universo da música de concerto. Impulsionada
por ideais iluministas, a música europeia erudita atravessou a
modernidade na direção de uma forte canonização das suas formações
instrumentais, de suas técnicas e modos de interpretar, adotando alguns
procedimentos tais como o tonalismo, a escrita como fonte de sentido e o
temperamento igual, entre outros. A rabeca, por sua vez, seguiu
caminhos diversificados e, sobretudo, livres de quaisquer padrões. Sua
sonoridade tornou-se mais afeita à não uniformidade e sua práxis seguiu
orientando-se pela oralidade e pela retórica do discurso cotidiano. Mais
recentemente a rabeca tem sido apropriada por músicos de formação
erudita em busca de alternativas para a renovação da linguagem musical
universalista do Ocidente. A ambiguidade tem sido a marca da relação que
o Ocidente moderno estabeleceu com a música de outros povos, ganhando
contornos específicos nos movimentos nacionalistas românticos e nos
“primitivismos” estéticos modernista e pós-modernista.
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