"Quando se fala de cinema do Recife, ou de Natal, é Nordeste. Quando se fala de cinema de São Paulo, é cinema de São Paulo e mais nada. Quando se fala de cinema no Rio, fala-se de cinema brasileiro."
Ontem fui na inauguração de um evento que se entenderá ao longo do ano, e que tenciono seguir com atenção: trata-se de um ciclo de cinema brasileiro no Arquivo Geral da Cidade, organizado pelo departamento de cinema da UFF (a minha faculdade) com apresentação de professores e artistas sobre a representação da cidade do Rio de Janeiro no cinema, desde o aparecimento deste até aos dias de hoje.
Para esta sessão de abertura, a acompanhar a conferência "Os Mistérios do Rio de Janeiro", vimos o filme O Uivo da Gaita (2013), do cineasta carioca Bruno Safadi, meu recente e querido amigo com quem vim de carona mês passado de Belo Horizonte, e que já me tinha falado um pouco no filme, me deixando curiosa... O filme trata de um triângulo amoroso e passa-se na Casa das Canoas que o arquiteto Oscar Niemeyer concebeu para morar longe do bulício da cidade, nos idos anos 50, num São Conrado antes da Rocinha e da expansão de Ipanema e do Leblon.
O filme é bastante sensorial, em parte devido ao trabalho sonoro que pontua as ações, inquietando o espectador, fazendo ecoar nele o incômodo da mulher que quer partir, deixar a casa, a sua vida?, o Rio. Não sabemos exatamente porquê, de que modo, que inquietação ao certo é essa, afinal ela parece entregar-se ao prazer e à ambiguidade da relação livremente, ora comendo um peixe numa mesa cuja loiça se parte deixando escorrer a água, lembrando a água do mar que vimos ao início onde ela e a outra mulher, sua amante, navegavam num barquinho. Linda vista a partir da praia do forte de Imbuí, que alguém falou dialoga com o sentido pictórico do final do século XIX, em que vemos o pão de açúcar num enquadramento geral, escala essa que raramente se encontra no cinema brasileiro do início do século XX.
As vistas aéreas, que em muito contribuíram para a formação de uma certa imagem-clichê do Rio de Janeiro, são todas feitas por estrangeiros até aos anos 30. Raramente é encontrada uma contextualização das cenas no cinema brasileiro desta época, diz o professor Hernâni Heffner, referindo-se ao conjunto de filmes encomendados por Oswaldo Cruz, sobre o saneamento básico do centro. Segundo ele, estes filmes apresentam uma familiaridade que dispensa créditos ou planos mais abertos das ruas e/ou fachadas...
Achei interessante esta análise da ausência de planos abertos, de contextualização da cidade, em que o registro documental também é desprovido de "magnitude": o professor refere os filmes dos funerais de figuras ilustres da época, como João do Rio, em que se faz referência aos jornais onde o cronista escreveu, e nunca se mostra o entorno, a cidade...
No filme do Bruno, gostei bastante de uma passagem que talvez funcione como uma chave pra desvendar o enigma que o filme propõe: trata-se de um trecho das "Profanações" do filósofo Giorgio Agamben, em que Dom Quixote acaba rasgando a tela de cinema:
O que devemos fazer com nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas a ponto de as devermos destruir, falsificar. Mas quando no final se revelam vazias, insatisfeitas, quando mostram o nada de que são feitas, só então (importa) descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia - que salvamos - não pode nos amar."Qual seria a imagem proteica por um lado do cinema, por outro, da cultura brasileira?", desafia o professor Hernâni.
A partir de uma análise de "O Uivo da Gaita", ele discorre sobre os significados do cinema marginal dos anos 60/70, já que o filme se insere numa trilogia que o invoca diretamente. Para esse cinema marginal de baixo orçamento, que denotava um desencantamento da realidade, apoiado numa radicalidade criativa, a invenção do Brasil não é tanto a que aconteceu na semana modernista, mas teria mais a ver com o universo do samba na década 10 do Séc. XX, retratado no curta de Sylvio Lanna, "Malandro, Termo Civilizado".
Estes filmes, em que o figurino remete para o séc. XIX ou os anos 50, como num sonho indiferenciado, quase todos passados na zona sul, nos quais mal se vê o mar nem se olha para a paisagem, vão promover uma desnaturalização dessa tal ideia da cidade construída a partir de um olhar estrangeiro. Basta pensar em Terra em Transe, em que a cidade é um El Dourado em que os planos aparecem estourados, com o fundo desfocado, sem contexto.
E assim se diz na palestra, que o cinema brasileiro não acredita no projeto modernista.
E no filme do Bruno, alguém diz que é difícil perceber o que querem estas personagens, representantes afinal da burguesia, da elite... com um incômodo existencial, o desejo de evasão que a cidade parece provocar nelas. O marido vai embora? Elas ficam juntas? Em busca do quê?
Para Agamben, quando o sagrado é impeditivo da ação política, a lógica do processo não é mais você tornar sagrado mas sim resgatar o profano para que este vire novamente sagrado, mas agora com outras significações...
Deixo-vos com a música do filme, que gostei muito, na voz do grande Dorival Caymmi.
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