Continuo me deleitando com o livro autobiográfico de Liv Ullmann, "Mutações", escrito por ela em 1976, quando tinha apenas 38 anos. Hoje pesquisando, soube que ela escreveu outro em 1984, que se chama "Opções". Com uma prosa lúcida e ao mesmo tempo detalhista, como nos filmes de Bergman ou os próprios filmes que dirigiu, o livro é límpido e terno como a paisagem nórdica que descreve, a força do mar profundo e dos bosques com caminhos estreitos, a alegria primaveril quando o sol desponta e ela e a filha colhem morangos silvestres na ilha.
Depois do capítulo em que descreve os cinco anos da sua relação com Bergman, que termina com a visita a Roma para conhecer Fellini, Liv conta como foi o regresso à sua terra natal na Noruega para fazer teatro, antes de viajar pelo mundo e tornar-se uma estrela internacional.
Em noite de óscares na televisão, deixo aqui este trecho curioso, entre tantas histórias simples e reveladoras de uma vida iluminada.
"Um dia, recebi um belo poema sobre a saudade de casa. Sean Connery, que o escreveu, também vivia viajando de um lado para o outro, como eu, passando a noite em camas estranhas. Em sua bagagem, tinha um grande maço de escritos. Leu muitos deles para mim. Sua mala era cheia de laudas amassadas, e algumas muito encardidas. Papéis de hotéis do mundo inteiro. Uma vida secreta que ele carregava consigo, para não ser tão estrangeiro nesta terra. Ele me contou seu desejo: de que a vida fluísse livremente sobre ele, de modo que a felicidade, se viesse, pudesse encontrá-lo aberto para recebê-la. Muitas vezes vejo fotos suas nos jornais. Sempre no centro, sempre sorrindo. E espero que tenha conseguido. Que tenha obtido momentos de felicidade, enquanto o sucesso e o dinheiro fluíam sobre ele."

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