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domingo, 8 de fevereiro de 2015

História das Lágrimas

Estou lendo este livro que descobri no último semestre em Antropologia das Emoções. Nele Anne Vincent-Buffault desenha uma categoria emocional dos séculos XVIII e XIX para responder à questão "Em sociedade, em que tempos chorou-se? Desde quando os homens não choram mais?" 

Como ela explica na introdução, "foi lendo romances do século XVIII, onde os personagens masculinos choram com uma volúpia inequívoca, que, de meu lado, encontrei essa surpreendente questão das lágrimas. As cenas de efusão desdobram-se em sutis alternâncias, onde a agitação das paixões concorre com êxtases deliciosos. Essas atitudes não pertencem somente à ficção: essas hipérboles, essas poses à Greuse tomam corpo nas correspondências, nas resenhas de espetáculos. A ficção une-se à vida. Os amantes banham suas cartas de lágrimas, os amigos abraçam-se chorando, e os espectadores desmancham-se em prantos com deleite. Aparentemente as coisas não se passam mais da mesma maneira no século XIX: uma nova economia dos signos corporais estabelece-se progressivamente, modificando os gestos da emoção. Seguir a pista das lágrimas permite captar as modalidades desta transformação. (...) Desde 1922 que Marcel Mauss colocou de maneira clarividente esta questão das lágrimas. Interrogando-se sobre "os ritos funerários orais das populações australianas", ela mostra que o uso obrigatório mas ao mesmo tempo espontâneo, das lágrimas confere-lhes um estatuto de signo*. Alguns meses mais tarde na mesma revista, Marcel Granet desenvolve essa análise, ao observar a linguagem da dor na civilização chinesa. Esses trabalhos estimularam-me a deslocar as noções de sinceridade e de espontaneidade face ao uso demonstrativo das lágrimas  - visão contemporânea que vem sem dúvida do século XIX, mas que não é central para todas as sociedades - em direção àquelas das redes de comunicação que elas revelam." 


* Me lembrei também do ritual funerário canibal dos Wari, em Comendo Como Gente de Aparecida Vilaça, que implica esse chorar por compaixão na hora da ingestão do morto

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