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domingo, 15 de maio de 2022

Fernando Pessoa - escritos autobiográficos

Há uma nova biografia de Pessoa por Richard Zenith, que parece que é maravilhosa. Fui procurá-la no Chiado, mas como ainda não está disponível, acabei por comprar os “Escritos autobiográficos, automáticos, e de reflexão pessoal”. Fiquei com curiosidade de ver o que Pessoa psicografou. São 80 comunicações mediúnicas que ele recebia de espíritos astrais a partir de 1916. Na adolescência, li Estranho Estrangeiro, a biografia feita por Robert Bréchon, um especialista francês da sua obra, e lembro-me de ficar maravilhada. Apeteceu-me voltar à sua solidão característica, e aos seus devaneios.

Aos 18 anos, depois de vir da África do Sul e ingressar no curso superior de letras em Lisboa, Fernando Pessoa escreve no seu diário... sobre os passeios que dá com amigos, os livros que lê, o calor que fazia no comboio. Ensaia ideias de contos, e entra em divagações mais ou menos profundas. Gostei desta...

    "Mas o que é o próprio homem senão um inseto cego e inane zumbindo contra uma janela fechada? Instintivamente pressente, para além da vidraça, uma grande luz e calor. Porem é cego e não pode vê-la; nem pode ver que algo se interpõe entre ele e a luz. Por isso esforça-se atabalhoadamente por se aproximar dela.  Pode afastar-se da luz, mas não consegue chegar mais perto desta do que a vidraça o permite. Como irá a Ciência ajudá-lo?  Pode descobrir a irregularidade e as protuberâncias próprias do vidro, constatar que aqui é mais espesso, ali mais fino, aqui mais grosseiro, e acolá mais delicado: com tudo isto, amável filósofo, até que ponto se aproxima da luz? Até que ponto está mais perto de ver? E todavia acredito que o homem de génio, o poeta, consegue de algum modo atravessar a vidraça e sair para a luminosidade exterior; sente calor e satisfação por ter ido tão mais longe do que todos os homens, mas mesmo ele não continua cego? Estará mais próximo de conhecer a Verdade eterna?
    Deixai-me levar a minha metáfora um pouco mais longe. Há alguns que se afastam da vidraça para o lado errado, recuando; porém, ao darem consigo longe dela gritam em redor, “Já a atravessámos”.

    Eu era um poeta animado pela filosofia, não um filósofo com faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível e através do muito pequeno a alma poética do universo.
    A poesia da Terra nunca está morta.
    Há poesia em tudo - na terra e no mar, nos lagos e margens dos rios. Também a há na cidade - não o neguem - é evidente para mim aqui onde me sento: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas, em cada movimento ínfimo, trivial, ridículo de um trabalhador que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho.
    O meu sentido interno predomina de tal modo sobre os meus cinco sentidos que vejo as coisas desta vida - estou convencido disso - de modo diferente dos outros homens. Existe -  existia - para mim um significado riquíssimo em algo tão ridículo como a chave de uma porta, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há, para mim, toda uma plenitude de sugestão espiritual numa galinha com os seus pintos a atravessarem a estrada com ar pimpão. Há para mim um significado mais profundo do que os medos humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas deitadas no lixo, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso rodopiam e se perseguem pela rua abaixo. 

    Pois a poesia é assombro, admiração, como de um ser caído dos céus que toma plena consciência da sua queda, espantado com o que vê. Como alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por recordar esse conhecimento, lembrando-se que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas não se lembrando de mais nada."

 

 

     Fotografia que tirei na Costa da Caparica 

 

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