Língua

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Ode ao sublime por Monica Vitti

Eu quero tudo. 

Tudo é um pensamento cru que dilacera.


Um sinal de nevoeiro berrando através da névoa 

transforma a névoa em

tudo.

Comer ovos de codorna na mão em meio à névoa faz tudo 

ser afrodisíaco.


Meu marido dá de ombros quando eu digo isso, 

meu marido dá de ombros

a tudo.

Os lagos nos quais sua fábrica poluiu tudo 

são tão belos quanto Brueghel.


Deixo minha loja, a fim de talvez vender

tudo que há nela, vazia, mas

mantenho a luz acesa.

Tudo pode derramar.


Sabia que nos abismos do mar tudo se 

torna transparente? pergunta

Corrado, amigo de meu marido, e eu digo Sabia que eu 

morro de medo?


Tudo requer atenção, eu nunca relaxo meu pescoço,

mesmo beijando Corrado

Kant diz que ‘tudo’ existe só na nossa mente, junto a uma 

onda de prazer e


de dor que vai para lá e para cá em mim quando eu deito 

na cama de

Corrado lutando contra tudo com Corrado me vendo do 

outro lado da sala e

então ele veio para a cama e


subiu em mim e isso não fez diferença exceto que agora 

eu tinha que lutar

contra tudo através de Corrado, o que eu fiz 

‘audaz’ (então, Kant) na cama 

congelante sob o clarão da meia-noite.


O que você vai levar? pergunto a Corrado, que está indo 

para a Patagônia e

quando ele diz 2 ou 3 bolsas eu digo Se eu tivesse que ir 

para longe eu

levaria comigo tudo o que vejo.


A isso Corrado nada responde o que não é, creio, o 

contrário de tudo.

Não parece certo é o que meu marido diria, ele diz isso 

sobre tudo –


especialmente desde que saí da clínica, uma clínica 

para pessoas que

querem tudo,

tudo que eu vejo tudo o que eu provo tudo o que eu toco

todos os dias até as cinzas e na


clínica eu só tinha uma pergunta O que

faço com meus olhos?

Poema de Anne Carson

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